Cinema e Gastronomia – Filme: “Okja” – Precisamos falar sobre.

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Falam muito sobre a crueldade do sistema industrial de carne, como os animais nascem, crescem, morrem e são considerados.  Mas ainda há um abismo entre o consumidor de carne e seu contato com o bicho – o bicho, não proteína (odeio esse termo que reduz o animal e tira a coisa “viva” e sagrada que ele é). Acho que é preciso visitar o bicho e sua vida para relembrar que o bicho existe, que o colocamos em um lugar quando escolhemos o que comprar e que assim, temos uma relação com esse bicho e somos responsáveis pelo seu destino. O filme Okja (Netflix, 2017) nos faz visitar o bicho, nos faz encontrar a conexão que temos com os seres vivos que dividem o planeta conosco. O preço de uma vida – Quando entramos em contato real com o animal fica ridículo dizer que o valor de sua vida se reduz ao preço do seu quilo no mercado. O filme Okja é delicado, sensível, parece um filme infantil, mas está longe de ser – aliás, o tom infantil que ele confere aos empresários da industria de carne talvez seja um convite à reflexão sobre a imaturidade e irresponsabilidade de um grupo de pessoas que constroem um desgaste e desequilíbrio da vida de um planeta que também são parte, aniquilando a relação genuína de coexistência que as espécies poderiam ter. Eu não sou vegetariano, não aponto maneiras únicas de viver em paz com o planeta e consigo mesmo, mas você não precisa ser vegetariano para achar assombroso como um bicho é tratado no confinamento. Se um dia eu deixar de comer carne, não será porque acho exatamente sujo comer um animal, mas talvez porque eu ache sujo o que a indústria fez com o animal, tirando qualquer chance dele ter uma vida digna e chegar até nós na cadeia de uma forma que não tira sua dignidade e valor – porque ele não é proteína, é uma vida, e nunca deveria ter deixado de ser visto como tal.

No filme, a confusa CEO de uma poderosa empresa apresenta ao mundo uma nova espécie animal que supostamente foi descoberta no Chile. Apelidada de “super porco”, ela é cuidada em laboratório e tem 26 animais enviados para países distintos, onde cada criador a receberia e cuidaria de acordo com a cultura local. Os animais espalhados pelo planeta seriam, após 10 anos, concorrentes de um concurso que elegeria o melhor “super porco”.  Depois dos 10 anos, o filme conta a história da jovem coreana Mija (Seo-Hyun Ahn), que convive desde a infância com um dos animais espalhados pelo mundo, a Okja, o super porco fêmea criado pelo seu avô. Ela cria um vínculo com o animal e quando está prestes a perdê-la devido à proximidade do concurso, Mija decide lutar para ficar ao lado dela, e acaba entrando em contato com a cruel realidade do sistema industrial de carne. Entre pessoas que alimentam esse sistema e pessoas que tentam trazer lucidez para esse trágico cenário, o filme nos emociona e nos incomoda – nos intima a pensar sobre.

A relação afetiva que Mija tem com o animal é uma maneira genial de nos sensibilizar, nos lembrando de que a carne vendida por aí é um bicho – e que os bichos podem se relacionar com nós humanos de maneiras intensas. Essa conexão afetiva constrói ao longo no filme um repúdio em nós ao modo como a indústria vê, considera e classifica os animais. Aquela estranha vergonha de fazer parte da sujeira que acontece no confinamento nasce na gente durante o filme – um sentimento importante de ser elucidado, que pode ganhar destinos importantes. E isso faz do filme um serviço ao planeta – porque sair do mecânico e pensar é sempre o mais difícil, mas quando as pessoas singelamente são convidadas a fazer isso, transformações importantes podem acontecer.

E um aspecto ainda mais genial do filme é o tom infantil que ele confere principalmente aos personagens que representam os empresários da indústria da carne – é possível ler nisso um recado nas entrelinhas – afinal, o modo como as indústrias tem se relacionado com o planeta, com foco sempre na produção capital, pode, de certa ótica, ser visto como infantil (busca de desejos cegos sem medir consequências), imatura e extremamente irresponsável, pois na real, isso tem levado à uma gradual doença dos ecossistemas que todos somos parte – é uma negligência que cava a própria cova, pois nós também somos o planeta. E é engraçado ver no filme os empresários com características de imaturidade, infantilidade, pessoas mimadas ou com dificuldades emocionais que dificultam sua consciência saudável das coisas – mesmo o filme sendo uma ficção, não é muito difícil conectar esse cenário ao nosso, em outros termos.

Precisamos assistir Okja de coração aberto, sem medo de encarar suas próprias responsabilidades – se não a gente fecha o olho e não vê direito o que o filme quer dizer. É importante saber aquilo que você escreve quando escolhe o que consumir. As coisas podem ser diferentes e suas escolhas são importantes. Existem muitos jeitos de comer um animal, existem muitos jeitos também de comer, há alternativas e muita gente séria enxergando coisas sérias. Okja é um presente, bem feito e talentoso, para nos alertar.

O filme é uma produção da Netflix e está até a data desse post disponível no seu catálogo.

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Como fazer um almoço honesto e bom: Cenouras caramelizadas com cogumelos e berinjela defumada. 

As quantidades tem a ver com quantas pessoas terão a honra de comer. Leia e pense.

Modo de preparo:

Para um almoço honesto e bom: Escolha cenouras orgânicas – pequenas, tortinhas, de verdade, docinhas, que provavelmente foram cultivadas por alguém que se orgulhe delas. Corte a parte do talinho. Eu nem descasco. Unte uma fôrma com manteiga, coloque as cenouras, regue com azeite e coloque mais manteiga, pincelando as cenourinhas. Polvilhe açúcar e sal. Se quiser, também coloque folhinhas de sálvia. Asse no forno até elas ficarem na textura que te faça feliz – no meio do tempo em que assam vire elas, para caramelizar por todos os lados. Um pouco antes das cenouras ficarem prontas você pode por cogumelos na mesma fôrma para ficarem amigos da cenoura. É uma amizade bonita. A berinjela defumada: é só queimar a casca de uma berinjela na boca do fogão até tostar toda casca. Depois descasque e tempere com sal e azeite. Aïoli fica bom para acompanhar. É uma alegria profunda comer isso. A terra e a energia do mundo é captada na cozinha, quando cozinhamos honestamente e direito. Entendam isso. Bom domingo.

Onde comer em Londres – Uma autêntica experiência londrina em 4 atos gastronômicos.

Como sempre digo: Quando viajar, “coma o lugar”. A comida é sempre uma forte marca cultural que conta muita coisa de onde você está. O gosto de algo marca uma cena, e a memória que o gosto deixa é eterna. E ao contrário do que muitos pensam, Londres tem uma gastronomia forte e interessante, cheia de influências. Quero compartilhar com vocês uma verdadeira experiência gastronômica londrina em 4 atos – Não apenas 4 locais para comer, mas 4 momentos e maneiras de comer que te farão tocar Londres intensamente. Começando por um café da manhã inglês forte e curioso, passando por um almoço simples ao ar livre em um dos parques lindos da cidade, seguindo por um tradicional chá da tarde inglês e finalizando com um prato típico e marcante no jantar. Vem ver o que tem de bom na incrível cidade da Beth, que é muito mais que fish and chips!

 

  • Primeiro ato: O grandioso e farto café da manhã inglês na Patisserie Valerie.

Really English Breakfeast.

Esse lugar é famoso pelos seus lindos bolos (o item mais apreciado da confeitaria inglesa), porém lá você consegue fazer qualquer refeição. Eles tem um cardápio super amplo a preços acessíveis, e tomar seu café da manhã lá te trará uma experiência extremamente inglesa para começar o dia – Peça o English Breakfeast – vem com ovos pochés, tomates assados, feijão, linguiça, presunto, cogumelos, manteiga e torradas – (um prato serve 2). É uma delícia, alimenta você bastante e permite que depois você faça um almoço mais leve no parque (que é o segundo ato). Enquanto come sinta o contraste desse café da manhã com aquilo que você está acostumado na sua cultura, sinta a diferença e pense no quanto ela é interessante, no quanto o mundo é grande e diverso…

Há diversas unidades na cidade, clique aqui e veja o site da Patisserie Valerie para mais informações. 

 

  • Segundo ato: Comprar um “Meal Deal” (refeição pronta) em uma das unidades da rede Tesco ou da Pret A Manger.

Vista no lindo Primrose Hill.

Na hora do almoço uma das coisas mais comuns em Londres é ver os parques e alguns outros locais públicos cheios de pessoas com seus “meal deals” almoçando ao ar livre. Isso é muito londrino. O meal deal é uma refeição completa vendida em muitos lugares (mercados, lanchonetes e até farmácias), é composto de um prato principal, um snack e uma bebida por um preço fixo (normalmente £3). Comprar sua comida e ir comer no parque te faz experimentar uma comum atmosfera da cidade, muita gente lá faz isso. Você pode comprar sua refeição na famosa rede Tesco (uma loja que tem de tudo) ou na Pret A Manger (gosto mais dessa, ela só trabalha com produtos frescos e suas refeições são feitas artesanalmente, custa um pouco mais mas acho que compensa). Depois é só escolher um dos parques lindos da cidade e fazer sua refeição – meu preferido é o Primrose Hill – Onde você consegue ter uma das melhores vistas de Londres. Também adoro o St James Park e o Hyde Park. Amoce na grama, olhe em volta, sinta-se tocando um hábito cultural de onde você está.

Uma salada fresquinha do meu meal deal.

Clique aqui para ver as unidades do Tesco ou aqui para ver unidades do Pret A Manger . 

 

  • Terceiro ato: O tradicional chá da tarde inglês, novamente no Patisserie Valerie.

Os famosos bolos da Patisserie Valerie.

Não faz muito sentido ir à Inglaterra e não tomar um chá. O tradicional chá da tarde é uma refeição muito famosa na cidade, e todo mundo quer provar – por isso os preços são altos – existem locais que oferecem a famosa refeição por preços absurdos (em combos que vem até champagne) e locais mais simples. Normalmente oferecem a refeição em um combo, um valor que vem o chá e diversas especialidades, docinhos, sanduichinhos, etc. Para seu tradicional chá da tarde inglês indico novamente a Patisserie Valerie, o preço é um dos melhores e as coisas são gostosas, considero que vale a pena para provar o tradicional chá sem pesar muito no bolso!

Clique aqui e veja mais informações sobre a Patisserie Valerie.

 

  • Quarto ato: Jantar um prato completamente inglês no agradável Garfunkel’s Restaurant.

Proper pie.

Um das coisas mais gostosas que comi em Londres foi a famosa “Proper pie” – um bolo de carne  – algo que está mais para uma torta de carne. É vendida em muitos lugares (inclusive você pode encontrar ela em um dos famosos pubs da cidade), mas a que mais gostei foi uma que comi em um restaurante da rede Garfunkel’s – o recheio era extremamente suculento e marcante. Normalmente ela é servida com um purê de batatas e legumes. No Garfunkel’s tem um Fish and Chips (o famoso peixe frito com batatas fritas) bem gostoso também, mas essa torta é maravilhosa e você precisa provar, sério. Esse prato é aconchegante e da a sensação de uma comida inglesa caseira, de mãe. Sinta esse aconchego, é bom.

O Garfunkel’s tem diversas unidades espalhadas pela cidade, clique aqui e veja mais informações. 

 

Essas experiências gastronômicas são uma forma de ir além do comum e entrar em contato com a cultura do local de diversos jeitos. Mas ela precisa ser feita com sensibilidade  – coma os pratos, olhe em volta, observe as pessoas, sinta toda a atmosfera enquanto o gosto da comida acontece. A experiência será plena. Isso é emocionante. Londres é linda e tem um gosto muito bom! Aproveite!

Onde comer em Toronto (Canadá) – 4 lugares imperdíveis para você visitar e conhecer a típica gastronomia dessa cidade incrível!

“Comer o lugar” é sempre muito importante – a marca que o gosto deixa é eterna. Através do sabor da comida de um local você navega por traços culturais diversos que compõe aquele espaço. Toronto é uma cidade cheia de possibilidades gastronômicas incríveis, separei 4 das minhas prediletas para compartilhar com vocês! Olhem elas:

1) Eggsmart – O autêntico brunch canadense!

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Brunch: Breakfast + Lunch  – Refeição de origem britânica muito comum na América do Norte, que é café da manhã e almoço em uma refeição só, muito comum de acontecer em domingos e feriados (que é quando se acorda mais tarde).  A comida típica de um local traz o gosto autêntico de sua história e costumes – Sempre “Coma” um lugar! O café da manhã canadense é uma marca intensa do país. Pesado, intenso, mas delicioso. Comi as 9:00 e só senti fome as 15:00, e não era nada que se diga nossa, como ele está com fome. Meu Deus! E o melhor lugar para experimentar um café típico do Canadá é a Eggsmart – uma rede muito legal com diversas opções e combinações de refeições, vai lá amar gente! Tem unidades espalhadas por Toronto!

Onde: Existem várias unidades espalhadas por Toronto. Confira no site deles!

Clique aqui e acesso o site do Eggsmart e veja todas informações.

E se quiser fazer em casa as pancakes tradicionais do Brunch canadense, clica aqui e veja receita. 

 

2) Wanda’s Pie In The Sky – As melhores tortas de Toronto! 

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O Kensington Market é um bairro maior gracinha de Toronto! Lá você encontra ingredientes frescos e de excelente qualidade! Tem de tudo lá! Brasileiros com saudade de comidinhas da terra tropical podem achar um monte de produtos made in Brazil lá – como paçoca, guaraná e pão de queijo! O bairro também é conhecido por ter um mundarel de brechós – que tem muito coisa boa e legal gente! Agora o melhor desse bairro pra mim são as apaixonantes tortas da Wanda’s Pie In The Sky! Misericórdia, é muito bom! Caso de amor-real-eterno com essas delícias! Vale muitíssimo a pena dar uma parada lá e provar! Meu amor maior do cardápio deles é a de banana (essa da foto)! Aí meu coração. É um dos melhores lugares para provar as tão famosas tortas canadenses.

Onde: 287 Augusta Avenue, Toronto, ON M5T 2M2 (416-236-7585).

Clique aqui e acesse o site do Wanda’s Pie In the Sky e veja todas informações!

Se você não está em Toronto e quer comer uma tradicional torta norte-americana, clique aqui e veja minha emocionante receita de cheesecake! 

 

3) Soma Chocolatemaker – O melhor chocolate quente do mundo está em Toronto! 

Um chocolate quente deixa qualquer inverno mágico. Na verdade que só no inverno o que! Em qualquer momento um chocolate quente bem feito, com ingredientes bons e bem usados, proporcionam experiências tão boas que quase nos fazem voltar a acreditar em fadas. Mas no inverno de fato isso fica bem melhor. Quem visitar Toronto não pode deixar de experimentar o Hot Chocolate da Soma Chocolatemaker! Encantador! Eles tem uma opção que é o Hot Chocolate Spicy – Um chocolate quente com especiarias picantes, incrível! Nunca provei um tão harmônico!

A unidade que visitei do Soma Chocolatemaker fica num lugar lindíssimo, numa área histórica de Toronto chamada  Distillery District, um lugar fofo com restaurantes, galerias de arte, local muito frequentado por artistas. Vale apena o passeio por lá! Ainda contando que indo lá você encontra a delícia do Hot Chocolate da Soma, vale mais a pena ainda! Eles tem diversos produtos derivados de chocolate por lá, e lá mesmo fabricam o que vendem, podemos ver por um vidro alguns passos da produção, é bem legal! os preços não são os mais em conta mas não são absurdos, com $5 dólares você toma o famoso Hot Chocolate. Visite e seja feliz!

Onde: 32 Tank House Lane, Toronto, Ontario, Canada, M5A3C4

Clique aqui e acesse o site da Soma Chocolatemaker e veja todas informações!

 

4) 360 Restaurant – Alta gastronomia no topo da CN Tower!

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Uma das mais incríveis experiências gastronômicas da minha vida foi almoçar no 360 Restaurant –  um restaurante de Toronto que fica no alto da famosa CN Tower. Ele tem esse nome porque é um restaurante giratório que da uma volta de 360º no período de 1 hora. O restaurante é lindo, a comida é sensacional e a vista que você tem de toda a Grande Toronto de lá de cima é um espetáculo, sem contar a sensação gostosa de ir girando (numa velocidade muito tranquila que quase não se sente) e vendo a paisagem mudar, podendo ver Toronto de todos os ângulos e a mais de 350 metros de altura! Quem visita Toronto normalmente já visita a CN Tower, então super vale a pena conhecer o restaurante!

Algo bacana é que se você faz uma refeição no restaurante (uma refeição completa com entrada, prato principal e sobremesa fica em torno de 55 dólares – é o preço fixo para um menu completo) você não paga ingresso para acessar a CN Tower (que custa cerca de 30 dólares), acaba que super compensa em questão de valores, pois você gasta cerca de 30 dólares a mais e tem a experiência incrível de comer no 360 Restaurant!

O restaurante é elegante, muito bem servido e o menu é incrível! Quando fui, comi de entrada um foie gras servido com uma geleia de frutas vermelhas e torradas (adorei o sabor, só não gostei muito da consistência que estava meu foie gras), de prato principal escolhi o Pan Seared Atlantic Salmon & PEI Mussels – Um salmão servido com mexilhões acompanhados de um molho muito bom! Prato divino! E de sobremesa pedi a famosinha do restaurante: Dark Chocolate Tower – Uma torre feita de uma espécie de creme de chocolate e baunilha, servida com frutas azedinhas e um molho de vinho do porto, é maravilhosa também!

O restaurante é impecável e vale super a pena! E após almoçar no restaurante você pode aproveitar as outras atrações da CN Tower (andar no chão de vidro e ter a sensação de estar voando e apreciar a paisagem de Toronto no outro salão da Torre). Esse almoço e tudo que está em volta dele é uma das mais lindas lembranças que guardarei de Toronto, muito especial e diferente, marca e vale a pena!

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Onde: 301 Front St. West (&John St.), fica do lado do Ripley’s Aquarium of Canada.

Clique aqui e acesse o site do 360 Restaurante e veja todas informações!

 

Enfim, espero que tenham sentido o quanto essa cidade é diversa e incrível! Esses 4 lugares são só uma amostra, ela tem uma gastronomia rica, aconchegante e cheia de graça! Um charme a parte! Desfrute!

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Cinema e gastronomia – Filme: Le Chef (Comme un chef).

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A gastronomia tem se tornado cada vez mais objeto de desejo e consumo. O glamour, chefs estrelados, restaurantes badalados e todo viés econômico em volta disso tem construído uma ideia de exuberância em volta da gastronomia. Entretanto, há algumas coisas que precisam ser lembradas sobre o que significa cozinhar – para além de todo esse glamour, existe algo muito importante nesse ato que nos acompanha desde a origem das civilizações. Cozinhar é uma entrega que fazemos ao outro, é uma construção que nos conecta as pessoas, contorna inúmeras relações e mostra o valor do coletivo. O filme francês Le Chef é divertido, traz toda a riqueza da cozinha francesa e também traz recados muito importantes.

Ele conta 2 histórias: a de um cozinheiro amador buscando um lugar profissional e a de um chef francês estrelado. Contornando a história desses dois o filme mostra o quanto o espetáculo e glamour pode distanciar cozinheiros de coisas valiosas que a cozinha oferece. Quando um chef estrelado se lembra de ser cozinheiro e se conecta com a verdadeira essência da cozinha, algo especial acontece. O filme nos lembra do ato de amor, doação e generosidade que envolve a cozinha quando cozinhamos para o outro e com o outro, e não apenas para nosso prazer pessoal e vaidade – tanto na cozinha caseira, quando cozinhamos para quem amamos lhes oferecemos algo construído pelas nossas mãos, quanto na cozinha profissional, quando cozinhamos ao lado de uma equipe, fazendo no coletivo um trabalho que afeta a vida de todos ali, do local onde o restaurante está, dos fornecedores de ingredientes e das pessoas que irão comer. Há uma conexão gigante na cozinha entre muitas pessoas. Estão todos juntos.

A cozinha é um ato coletivo e generoso se assim a enxergamos e nela atuarmos. Talvez o mais tocante do filme seja como ele mostra um chef estrelado saindo de sua individualidade e compreendendo que a essência real da cozinha não é apenas cozinhar para nosso prazer e vaidade, mas sim lembrar de todo esse coletivo que ela é e o tanto de gente que ela afeta, se reconectando assim com a via mais genuína desse trabalho.

Contando as aventuras do cozinheiro amador Jacky Bonnot para conseguir um lugar profissional, onde pudesse dar vazão a sua via criativa, o filme traz todo esse tema importante, de forma divertida e deliciosa – nos fazendo navegar no mundo gastronômico fascinante que a França tem. Quando a história de Jacky topa com a história do estrelado chef Alexandre Lagarde, ambos começam uma relação que transforma suas vidas para sempre, os fazendo repensar suas práticas e o sentido que a cozinha tem para ambos. Super indicado! O filme até a data de hoje (02/07/2017) está disponível na Netflix! Vale muito apena. Aproveite e bon appétit!

Le Chef  – Como um chef! 

Título original: Comme un chef (California filmes, 2011). 

Como fazer omelete de claras!

Muitas receitas pedem para você usar gemas e descartar claras. É uma falta de vergonha na cara e de criatividade você jogar as claras no ralo da pia! Respeitar a natureza e o ingrediente está intimamente conectado a não desperdiçar, a usar o todo do que a natureza construiu e te ofereceu. Eu sou tarado por confeitaria francesa, e essa é campeã em usar gema e dar tchau para claras! Pois toda vez que isso acontece eu invento algo com as claras, que podem ser usadas para muitas coisas – macarons, suspiros, e zás! Eu AMO omelete de claras, ficam tão fofas e leves, e amo mais ainda comer ela com um bom molho béchamel ou molho mornay – torna a omelete um prato que abraça a gente de tanto aconchego! Chega aqui no blog e confira a receita de uma boa e simples omelete de claras!

Ingredientes:

  • Claras (o tanto que você tiver e quiser)
  • Creme de leite – 1 colher de sobremesa para cada 1 clara.
  • Sal à gosto
  • Pimenta-do-reino preta à gosto
  • Salsinha fresca picada ou talos/folhas de salsão picados à gosto
  • Alho-poró picado à gosto (gosto de usar a parte verde nessa receita)
  • Manteiga para fritar

Modo de preparo:

Misture todos os ingredientes (exceto a manteiga) e bata para misturar bem (pode ser com um garfo mesmo ou fouet). Adeque o sal e temperos de acordo com a quantidade de claras que usar – deve existir uma coerência. Aqueça uma frigideira (antiaderente) e coloque a manteiga o suficiente para untar toda ela. Após isso coloque a mistura de claras na frigideira, deixe fritar por cerca de 1/2 minutos e depois vire. Deixe então fritar mais 1 minuto e meio do outro lado (ou menos, veja o ponto que prefere).

E tá pronto, gente! Essa é a base! Eu gosto de comer sempre acompanhada de algum molho aconchegante ou com ricota dentro. Daí coloco uma generosa quantidade de molho no meio, fecho, as vezes coloco um pouco de parmesão por cima e sirvo! Vou sugerir 2 molhos para rechear:

Molho Béchamel – Clique aqui e confira receita

Molho Mornay – Clique aqui e confira receita

Bon appétit!

 

Como fazer ganache de chocolate, o creme que surgiu de um acidente francês! – Confira também como fazer fondue de chocolate!

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Ganache em francês significa “imbecil” ou “incapaz”. A divertida origem desse delicioso creme está relacionada com esse termo – A história diz que um assistente de chocolatier na França por acidente derramou creme de leite quente em um recipiente cheio de chocolate, daí o mestre chocolatier ficou muito revolts e ofendeu o seu assistente usando o termo “ganache ” – Quem diria que isso é palavrão, né gente? Se alguém me chamasse de “ganache” na França eu ia imaginar que a pessoa está dizendo que sou um docinho… enfim, adiante. Só que aí, antes de descartar a mistura acidental o chef misturou melhor e provou, e amou, e hoje o creme ganache é um dos preparos mais tradicionais da confeitaria francesa. Que gracinha, não é mesmo? Veja receita abaixo e agradeça esse santo acidente! E ah! Nesse frio que se achega por aqui, é só fazer essa receita (acrescentando um toque especial que explico abaixo) que você terá um fondue incrível!

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Ingredientes:

  • 400g de chocolate cortado em pedaços pequenos (use chocolate de qualidade, essa receita usa 2 ingredientes, então o segredo está na qualidade deles – eu gosto de fazer com chocolate meio amargo).
  • 200g de creme de leite fresco (pode usar o de latinha sem o soro se não achar o fresco).
  • Se for fazer para fondue, também usará uma colher de sobremesa de conhaque.

Modo de preparo:

Aqueça o creme de leite em uma panela, não deixe ferver, mas deixe bem quente. Coloque o chocolate em um recipiente e coloque o creme de leite quente sobre ele. Aguarde cerca de 30 segundos e então misture, delicadamente, até que todo chocolate esteja derretido e incorporado. Se estiver fazendo para fondue, acrescente para finalizar a colher de conhaque e misture bem.

Prontinho! Simples, clássico e lindo! Bon appétit! Use sua criatividade para rechear coisas, cobrir coisas, comer puro, etc!

 

Mini-quiche de Alho-poró, Queijo e Amêndoas – Mas que gracinha!

Nessa foto eles estão regados com um Molho de mostarda, mel e vinho branco - confira link para receita desse molho abaixo!

Nessa foto eles estão regados com um Molho de mostarda, mel e vinho branco – confira link para receita desse molho abaixo!

Receita de mini quiche de alho-poró, queijo e amêndoas. Quiche, de “kuchen”, que significa bolo em alemão. Quiche é francesa, mas da região de Lorena, que já é quase Alemanha. O nome dos pratos fundem significados, brincam com a origem e contam a história de um lugar. O que os pratos guardam? Tanto. Quiches são pra mim um doce exercício de criatividade – é possível fazer tantos tipos, formatos, tamanhos, recheios… Enfim, é possível muita coisa com quiches. Essas são mini – pequenas e delicadas, úteis para muitas ocasiões. Alho-poró, queijo e amêndoas juntos deram um resultado que fez com que eu me sentisse abraçado, abraçado em Paris. Diria mais: Abraçado em Paris por alguém que me importe muito. Sendo assim, concluímos, meus caros, que essa mini quiche de alho-poró, queijo e amêndoas é uma forma de encontrar amor. Espero que você tente a receita, e que sinta algo importante ao fazer, ao comer.

Ingredientes:

Massa:

  • 90g de manteiga amolecida (um pouco menos da metade daqueles bloquinhos mais comuns de encontrar por aí). Nem pensar substituir por margarina – leia o artigo “Manteiga ou Margarina?” e entenda o porque!
  • 1 colher de chá de açúcar
  • 1 colher de café de sal
  • 1 xícara e meia de farinha de trigo
  • 2 gemas
  • 2 colheres de sopa de água gelada

Recheio:

  • 4 ovos
  • 2 gemas
  • Claras (para pincelar a massa).
  • Aproximadamente 300g de creme de leite (fresco ou os de latinha)
  • 1 colher de chá de sal
  • Pimenta do reino à gosto
  • Noz-moscada à gosto
  • Alho-poró picado em rodelas
  • Amêndoas cortadas ao meio (uma quantidade pequena, cerca de umas 15 unidades)
  • Aproximadamente 100 g de queijo (de sua preferência – eu fiz com gruyère), cortado em cubinhos bem pequenos ou ralado.

Modo de preparo:

Comece pela massa: Misture a manteiga com o açúcar e o sal. Acrescente então a farinha, as gemas e a água gelada. Misture tudo com as mãos, se a massa ficar muito quebradiça coloque mais colheres de água gelada. Após isso faça uma bola com a massa, coloque sobre um papel filme e cubra a massa completamente com ele. Deixe então descansar na geladeira por 1 hora.

A massa pronta para ir descansar na geladeira por 1 hora.

A massa pronta para ir descansar na geladeira por 1 hora.

Unte com manteiga e farinha de trigo cerca de 7 forminhas pequenas (pode ser de cupcake, muffin, tortinhas ou as que você tiver – só não podem ser muito rasinhas). Então, após o descanso da massa, forre as forminhas com a massa (se você forrar todas e sobrar massa faça mais, a quantidade varia de acordo com o tanto de massa que você coloca na sua forminha) – não deixe muito fina nem muito grossa a massa na forminha – equilibre isso). Após forrar todas as forminhas pincele-as com a clara e coloque na geladeira enquanto prepara o recheio.

Agora o recheio: Pré-aqueça o forno à 190 graus. Bata de leve em uma tigela (com um fouet) os ovos e as gemas, junte o creme de leite, o sal e os temperos. Bata para misturar tudo.

Juntando tudo para misturar - quanta poesia colorida nessa mistura...

Juntando tudo para misturar – quanta poesia colorida nessa mistura…

Retire as forminhas da geladeira e distribua o recheio sobre elas (não encha muito para não derramar). Então distribua as rodelinhas de alho-poró, o queijo e as amêndoas entre as forminhas.

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Leve ao forno por cerca de 40 minutos (ou até o recheio ficar firme e dourado – como na foto). E prontinho! Essas gracinhas estão prontas! Desenforme e sirva quente ou frio. Uma dica incrível é na hora de servir regar com um Molho de Mostarda, Mel e Vinho Branco – Clique aqui e confira a receita desse molho!).

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Bon appétit!

Cinema e Gastronomia. Filme: Os Sabores do Palácio. 

Enxergar o Palácio de Eliseu (lugar mais poderoso da França) através de uma cozinha simples. Esse contraste que o filme “Os Sabores do Palácio” apresenta nos faz pensar sobre nosso apego pelo complexo e desprezo pelo simples e original (que evoca origem, essência) . O filme fala disso quando o homem mais poderoso da França, que pode comer o que quiser, decide comer comida caseira – aquela singela, mas com uma carga afetiva que alimenta muitas fomes na gente.

Os filmes franceses tem uma delicadeza e intensidade silenciosa que pra mim são um tiro na alma, na nossa sensibilidade mais profunda, crua e real. Um filme francês sobre gastronomia então, pra mim é tudo isso vezes 3 – é um escandâlo de significativo. “Os Sabores do Palácio” toca muitos elementos importantes: A alta gastronomia complexa em seu contraste – e na verdade, encontro – com a gastronomia simples, caseira, clara, próxima da nossa natureza familiar. O filme também fala de caminhos que escolhemos e deixamos de escolher, de um trajeto profissional e emocional, de receitas, de machismo, de identidade, verdade e amor.

Hortense Laborie, uma respeitada e simples cozinheira recebe uma proposta que muda sua vida: cozinhar para o presidente da França. Através dos desafios que vem com seu novo emprego, ela nos conduz pela sua história de fibra, arte, convicção e encanto e nos faz dançar a música que sempre é possível escutar na cozinha: aquela melodia que conta histórias importantes e sempre revela marcas afetivas, culturais, familiares e históricas. Hortense nos lembra que a cozinha é um lugar de fazer pessoas se sentiram abraçadas, se sentirem parte de uma história e de um lugar no mundo.

Até a data desse post o filme está disponível na Netflix. Corre pra ver antes que saia do catálogo! Vale muito a pena.

Dados técnicos:

  • Os Sabores do Palácio (Les saveurs du palais), 2012, França. Direção: Christian Vincent.

Ostara, Easter, Páscoa – Porque coelhos e ovos de chocolate? Confira origem da tradição e ainda seleção de nossas 7 melhores receitas com chocolate para sua Páscoa!

Ostara

Imagem: Site Santuário Lunar

Ostara, Easter, Páscoa. O termo “Páscoa”, vem de “Ostara”, deusa escandinava da primavera – estação do ano que no hemisfério norte se inicia próxima à celebração da Páscoa. Antes mesmo do cristianismo, o dia de Ostara era a celebração do primeiro dia de primavera, do fim do inverno e retorno do sol, do florescimento e renascimento da natureza – o cristianismo uniu essa simbologia de “renascimento da natureza” a ressurreição de Jesus, fato hoje que universalmente simboliza a páscoa. Na antiguidade, o povo anglo-saxão pintava ovos e os oferecia a Ostara, sendo que o ovo sempre simbolizou vida, nascimento, assim como o coelho também era relacionado a Ostara, simbolizando fertilidade e fecundidade na natureza. Daí vem a origem dos ovos e do coelho da páscoa, que eram muito antes os “ovos e coelhos de Ostara”. A criatividade humana tornou os ovos de Ostara em ovos de chocolate, criando uma intima relação desse ingrediente com toda a simbologia que envolve a Páscoa, os ovos, o coelho, a primavera e o renascimento. Por isso Páscoa tem tom de chocolate (do qual os ovos de Ostara deliciosamente acabaram sendo feitos) – a gastronomia tem sempre símbolos e marcas que contam a história da humanidade. Isso é sempre emocionante.

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Para celebrar toda a simbologia da Páscoa com, claro, chocolate, fiz uma seleção de nossas melhores receitas que envolvem chocolate! Chocolate também é renascimento, é símbolo, e é maravilhoso… Veja abaixo seleção com todo amor do mundo:

Para acessar as receitas basta clicar no link!

Receita de Ovo de Páscoa de Colher sabor Oreo

Receita da tradicional Mousse de Chocolate Francesa

Bolo Lava de Chocolate (Moelleux au Chocolat)

Receita de Brigadeiro Gourmet

Receita de Cookies Double Chocolate

Torta Mousse de Chocolate

Receita do original Ganache de Chocolate

Ostara winter

Ostara – Lavando o adormecimento da terra durante o inverno e trazendo o florescimento e renascimento da natureza.