Como fazer escargots com manteiga de ervas – e como se ampliar comendo algo que está fora das suas referências culturais.

Escargot, do francês, “caracol comestível”. Coma, algumas vezes, coisas que não fazem parte de suas referências culturais. É uma pena que a gente se encerre nos limites do nosso referencial e olhe pro diferente hora com medo, hora com desrespeito, hora com agressão. Chega perto do mundo que não é igual ao seu e construa descobertas, mais respeito, informação e ampliação pessoal autêntica – se aproximando e dando uma chance para aquilo que é contraste com você. Tanta coisa linda pra sentir e viver e a gente perdido em fobias. Descobre porque você tem medo, pede ajuda, e vai ver que mundo lindo e diverso, meu filho. Eu estou falando de provar escargot, mas também estou falando da vida.

O jeito mais fácil de encontrar escargots por aqui são os em conserva, por isso a receita é com eles. Escolha um de uma marca e origem confiável. Um dos melhores vem da Borgonha, na França, que são colhidos à mão por um povo que os respeita muito, e cria coisas emocionantes com eles.

Ingredientes (para 2 ou 3 pessoas, como entrada):

•Cerca de 15 escargots em conserva escorridos
• 1 taça de vinho branco
• 3 colheres de sopa de manteiga derretida
• 2 colheres de sopa de ervas picadas bem finamente (uso sempre salsinha e cebolinha)
• Sal e pimenta-do-reino preta à gosto
• Algum pão maravilhoso, para acompanhar

Modo de preparo:

Misture bem a manteiga derretida com 1 colher de sopa do vinho branco, as ervas, o sal e a pimenta. Depois de misturar leve pra gelar até ficar consistente. Escorra os escargots e deixe de molho no restante do vinho branco por 10 minutos. Então coloque 1 escargot em cada concha, e acrescente nelas, fechando até o topo, a manteiga de ervas. Arrume as conchas em uma assadeira com uma base de sal grosso (para ajudar a equilibrá-las). Se você não tiver conchas, é só dispor os escargots em um recipiente que possa ir ao forno, mas um pequeno para que não fiquem tão espaçados um do outro, e cubra todos eles com a pasta de manteiga. Então, com ou sem conchas, leve ao forno à 200 graus por 10 minutos. Pronto. Para comer, tira-se os escargots das conchas com garfinhos. Aproveita-se a manteiga que ainda fica nas conchas regando pedaços de pães. É diferente, mas é especial e bom, se você permitir.

Brioche French Toast (Rabanada)

Como fazer brioche french toast (rabanada diferente) – Uma poesia à base de manteiga que ajuda a gente a caramelizar tardes cinzas sofridas, nessa vida às vezes legal, às vezes esquisita


Numa tarde chata qualquer misture 1 ovo com 1 xícara de chá de leite, 2 colheres de sopa de açúcar e algum perfume de baunilha. Bata bem. Pegue uma fatia de brioche, fure com um garfo e encharque todinha nesse creme que fez. Com gentileza, leve a fatia encharcada para uma frigideira quente com manteiga e frite dos dois lados até dourar (uns 2 min de cada lado). Preste atenção no cheiro da manteiga fritando o brioche – se você não parou para prestar atenção nos cheiros e detalhes, você ainda não entendeu bem a receita – que é sobre a felicidade discreta, escondida na simplicidade do cotidiano, e na manteiga. Assim já fica pronto e suficientemente bom, mas se quiser mais emoção e tiver um maçarico, coloque uma camada de açúcar por cima e toste, sem timidez, até caramelizar bem – eu amo incendiar coisas, me anima muito (tem a ver com mapa astral e com Paola Carosella). Sirva com iogurte, frutas, sorvete ou nada. Aqui servi do meu jeito preferido, com coalhada.

Queime brioches para caramelizações intensas e lindas, não queime as tardes vazias. Não sempre, eu sei, mas às vezes a gente só precisa de 4 ou 5 ingredientes, e as coisas melhoram um pouco. Não é apenas sobre uma rabanada, mas sim sobre o quanto você se propõe. Abraços amanteigados. Essa receita agradeço à Paola Carosella e Julia Child (pessoas que sabem o poder que a cozinha tem em tardes cinzas).

Canjica ou Mungunzá!

Existem tantas receitas dessa por aí que na verdade não sei se vocês precisam de mais uma. Mas aí lembrei da história que essa tem e então achei que fazia sentido compartilhar – porque com a história junto, eu convido vocês a escrever também uma história quando forem cozinhar. Assim tem mais sentido.

Ingredientes:

  • 500g de milho branco para canjica
  • 2 conchas da água do cozimento do milho
  • 1 lata de leite condensado
  • 900 ml de leite integral
  • 300 ml de leite de coco
  • 2 paus de canela
  • Cravo da Índia à gosto
  • 1 xícara de chá de coco fresco ralado
  • 1 xícara de chá de amendoim tostado sem pele (opcional)

Preparo histórico e afetivo:

Era uns 9 anos que eu tinha. Sempre amava quando minha mãe ia cozinhar coisas que o processo começa 1 dia antes – eu adorava a sensação de ir dormir sabendo que já tinha algo que começou a ser feito lá na cozinha. Minha mãe colocava 500g de milho branco para canjica de molho na noite anterior ao preparo. No dia seguinte, com o sol já baixo das 17h batendo na pia, ela escorria a água do milho, lavava, depois colocava na panela de pressão cobrindo eles com água uns 3 dedos de altura. Cozinhava na pressão por 30 minutos. Na hora de abrir a panela eu ia sempre colocar a cara em cima e ela gritava pra eu sair dali que podia explodir tudo, mas eu adorava correr esse perigo. Estando o milho cozido, a água do cozimento é quase toda descartada, deixando ali apenas 2 conchas dessa água. Aí junta na panela: 1 lata de leite condensado, 900ml de leite integral, 300ml de leite de coco, 2 paus de canela, uns cravinhos da Índia e 1 xícara de chá de coco fresco ralado. A panela ia pro fogo médio até ficar tudo cremoso. Às vezes juntávamos 1 xícara de chá de amendoim tostado sem pele uns 5 minutos antes de desligar a panela. Daí perto da hora da novela das 20h que na verdade começava as 21h, eu ia no bar do Zé com 50 centavos comprar paçoca pra esfarelar em cima na hora de comer – era minha finalização do prato e eu me sentia um artista nessa hora. A gente comia no sofá vendo a novela e no dia de canjica nem janta tinha, era disso que toda a noite era feita.

Ostara, Easter, Páscoa – Porque coelhos e ovos de chocolate? Confira origem da tradição e ainda seleção de 12 receitas sensacionais para sua páscoa!

Ostara

Imagem: Site Santuário Lunar

Ostara, Easter, Páscoa. O termo “Páscoa”, vem de “Ostara”, deusa escandinava da primavera – estação do ano que no hemisfério norte se inicia próxima à celebração da Páscoa. Antes mesmo do cristianismo, o dia de Ostara era a celebração do primeiro dia de primavera, do fim do inverno e retorno do sol, do florescimento e renascimento da natureza – o cristianismo uniu essa simbologia de “renascimento da natureza” a ressurreição de Jesus, fato hoje que universalmente simboliza a páscoa. Na antiguidade, o povo anglo-saxão pintava ovos e os oferecia a Ostara, sendo que o ovo sempre simbolizou vida, nascimento, assim como o coelho também era relacionado a Ostara, simbolizando fertilidade e fecundidade na natureza. Daí vem a origem dos ovos e do coelho da páscoa, que eram muito antes os “ovos e coelhos de Ostara”. A criatividade humana tornou os ovos de Ostara em ovos de chocolate, criando uma intima relação desse ingrediente com toda a simbologia que envolve a Páscoa, os ovos, o coelho, a primavera e o renascimento. Por isso Páscoa tem tom de chocolate (do qual os ovos de Ostara deliciosamente acabaram sendo feitos) – a gastronomia tem sempre símbolos e marcas que contam a história da humanidade. Isso é sempre emocionante.

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Para celebrar toda a simbologia da Páscoa com, claro, chocolate, fiz uma seleção de nossas melhores receitas que envolvem chocolate! Chocolate também é renascimento, é símbolo, e é maravilhoso… Veja abaixo a seleção com todo amor do mundo:

Para acessar as receitas basta clicar no link!

Receita de Ovo de Páscoa de Colher sabor Oreo

Receita de Ovo de Páscoa de Colher Trufado de Laranja

Receita de Ovo de Páscoa de Colher de Brigadeiro Gourmet

Receita de Gâteau au Chocolat (Bolo de chocolate cremoso sem farinha)

Receita de biscoitos de manteiga de amendoim com recheio de chocolate

Receita da tradicional Mousse de Chocolate Francesa

Receita de Reine de Saba – O bolo de chocolate com amêndoas da Julia Child!

Bolo Lava de Chocolate (Moelleux au Chocolat)

Receita de tortinhas de chocolate com farofa crocante de caramelo

Receita de Cookies Double Chocolate

Receita de mousse de chocolate com cachaça e crocante de chocolate branco

Receita de Bolo Double Chocolate com Azeite de Oliva

Ostara winter

Ostara – Lavando o adormecimento da terra durante o inverno e trazendo o florescimento e renascimento da natureza.

Onde comer e se emocionar em Londres – Uma autêntica experiência londrina em 6 atos.

Como sempre digo: Quando viajar, “coma o lugar”. A comida é sempre uma forte marca cultural que conta muita coisa de onde você está. O gosto de algo marca uma cena, e a memória que o gosto deixa é eterna. E ao contrário do que muitos pensam, Londres tem uma gastronomia forte e interessante, cheia de influências de diversas culturas. Quero compartilhar com vocês uma verdadeira experiência gastronômica londrina em 6 atos – Não apenas 6 locais para comer, mas 6 momentos e maneiras de comer que te farão tocar Londres intensamente. Começando por um café da manhã inglês forte e curioso, passando por um almoço simples ao ar livre em um dos parques lindos da cidade, seguindo por um tradicional chá da tarde inglês e finalizando com 3 opções para comer a noite: um restaurante inglês típico, um restaurante para provar o famoso curry inglês – a famosa comida indiana de Londres – e um autêntico e bom pub. Vem ver o que tem de bom na incrível cidade da Beth, que é muito mais que só fish and chips!

 

  • Primeiro ato: O grandioso e farto café da manhã inglês na Patisserie Valerie.

Really English Breakfeast.

Esse lugar é famoso pelos seus lindos bolos (o item mais apreciado da confeitaria inglesa), porém lá você consegue fazer qualquer refeição. Eles tem um cardápio super amplo a preços acessíveis, e tomar seu café da manhã lá te trará uma experiência extremamente inglesa para começar o dia – Peça o English Breakfeast – vem com ovos pochés, tomates assados, feijão, linguiça, presunto, cogumelos, manteiga e torradas – (um prato serve 2). É uma delícia, alimenta você bastante e permite que depois você faça um almoço mais leve no parque (que é o segundo ato). Enquanto come sinta o contraste desse café da manhã com aquilo que você está acostumado na sua cultura, sinta a diferença e pense no quanto ela é interessante, no quanto o mundo é grande e diverso… E ah, sempre dê uma volta nas redondezas de onde for comer, vale sempre a pena curiar os cantos de um jeito livre sem saber o que vai achar também. 

Há diversas unidades na cidade, clique aqui e veja o site da Patisserie Valerie para mais informações. 

 

  • Segundo ato: Comprar um “Meal Deal” (refeição pronta) em uma das unidades da rede Tesco ou da Pret A Manger.

Vista no lindo Primrose Hill.

Na hora do almoço uma das coisas mais comuns em Londres é ver os parques e alguns outros locais públicos cheios de pessoas com seus “meal deals” almoçando ao ar livre. Isso é muito londrino, principalmente no verão e primavera, quando eles querem aproveitar cada gota de sol. O meal deal é uma refeição completa vendida em muitos lugares (mercados, lanchonetes e até farmácias), é composto de um prato principal, um snack e uma bebida por um preço fixo (normalmente £3). Comprar sua comida e ir comer no parque te faz experimentar uma comum atmosfera da cidade, muita gente lá faz isso. Você pode comprar sua refeição na famosa rede Tesco (uma loja que tem de tudo) ou na Pret A Manger (gosto mais dessa, ela só trabalha com produtos frescos e suas refeições são feitas artesanalmente, custa um pouco mais mas acho que compensa). Depois é só escolher um dos parques lindos da cidade e fazer sua refeição – meu preferido é o Primrose Hill – Onde você consegue ter uma das melhores vistas de Londres. Também adoro o St James Park e o Hyde Park. Amoce na grama, olhe em volta, sinta-se tocando um hábito cultural de onde você está.

Uma salada fresquinha do meu meal deal.

Clique aqui para ver as unidades do Tesco ou aqui para ver unidades do Pret A Manger . 

 

  • Terceiro ato: O tradicional chá da tarde inglês, novamente no Patisserie Valerie.

Os famosos bolos da Patisserie Valerie.

Não faz muito sentido ir à Inglaterra e não tomar um chá. O tradicional chá da tarde é uma refeição muito famosa na cidade, e todo mundo quer provar – por isso os preços são altos – existem locais que oferecem a famosa refeição por preços absurdos (em combos que vem até champagne) e locais mais simples. Normalmente oferecem a refeição em um combo, um valor que vem o chá e diversas especialidades, docinhos, sanduichinhos, etc. Para seu tradicional chá da tarde inglês indico novamente a Patisserie Valerie, o preço é um dos melhores e as coisas são gostosas, considero que vale a pena para provar o tradicional chá sem pesar muito no bolso! Também aproveite para prestar atenção no detalhe das vitrines de doces das lojas das unidades. Olhe como eles destacam os bolos. É uma experiência legal olhar a vitrine de doces e em seguida olhar para o ritmo nas ruas londrinas, gosto de relacionar os detalhes da cidade, é algo poético e sensível, faz a gente sentir algo bom, se estivermos dispostos. Se puder escolher ir em alguma unidade perto de algum parque vá, saindo do seu chá veja o entardecer em algum canto bonito verde da cidade. É bom.

Clique aqui e veja mais informações sobre a Patisserie Valerie.

 

  • Quarto ato: Opção de jantar: um prato completamente inglês no agradável Garfunkel’s Restaurant.

Proper pie.

Um das coisas mais gostosas que comi em Londres foi a famosa “Proper pie” – um bolo de carne  – algo que está mais para uma torta de carne. É vendida em muitos lugares (inclusive você pode encontrar ela em um dos famosos pubs da cidade), mas a que mais gostei foi uma que comi em um restaurante da rede Garfunkel’s – o recheio era extremamente suculento e marcante. Normalmente ela é servida com um purê de batatas e legumes. No Garfunkel’s tem um Fish and Chips (o famoso peixe frito com batatas fritas) bem gostoso também, mas essa torta é maravilhosa e você precisa provar, sério. Esse prato é aconchegante e da a sensação de uma comida inglesa caseira, de mãe. Sinta esse aconchego, é bom. Também se puder sente perto de alguma janela do restaurante e enquanto come olhe as luzes de Londres do lado de fora, o ritmo das pessoas, e coma junto com essa sensação.

O Garfunkel’s tem diversas unidades espalhadas pela cidade, clique aqui e veja mais informações. 

 

  • Quinto ato: Opção de jantar: Sentir o ardor emocionante da popular comida indiana em Londres – o curry inglês!

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Os londrinos amam a potente e apimentada comida indiana, então existe uma infinidade de restaurantes da categoria por lá, eu escolhi ir em um da popular rede Masala Zone.  O curry é um prato indiano tipicamente inglês, que designa um preparo de carne, frango ou peixe feito num molho apimentado e muito bem temperado. Cada restaurante faz o seu “curry” misturando as especiarias de sua preferência (cominho, gengibre e cardamomo costumam ser bem presentes). Aquele temperinho amarelo que conhecemos como curry aqui no Brasil é chamado pelos ingleses de “curry powder” ou “curry paste”. Nos cardápios dos restaurantes indianos por lá você pode não achar um prato descrito como “curry”, porque curry é o termo para o tipo de preparo da carne em determinado molho, os pratos feitos no estilo “curry” tem nomes próprios. Um dos favoritos dos ingleses é o Chicken Tikka Masala – um frango no estilo mais autêntico do curry. Quando fui em uma das unidades do Masala Zone (a do bairro Soho) já perguntei por algo que tinha o famoso Tikka. O garçon me sugeriu esse prato da foto, o Grand Thali – que vem com o chicken tikka masala, arroz e pão típicos da culinária indiana, 2 sabores de chutneys e dois molhos feitos com legumes – segundo o garçon o prato diverso com pequenas porções é um bom jeito de provar o sabor da comida indiana. Não sei toda composição dos pratos porque francamente não consegui entender tudo do inglês rápido do garçon, mas é tudo absolutamente forte, temperado e bom – mas só vá se você amar pimenta. Arde mesmo. Indico também lá uma bebida que é feita com coca-cola e cominho, surprendentemente boa. Adorei provar a intensidade da comida indiana, sai ardendo de felicidade. Se for na unidade do Soho, não deixe de passear pelo bairro, charmoso que só ele!

Clique aqui e acesse o site da rede Masala Zone para ver o endereço das unidades. 

  • Sexto ato: Opção de jantar e bar para curtir a noite londrina – Pride of Paddington, um autêntico pub inglês! 

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Ir num pub em Londres é absolutamente típico – um lindo jeito de ver de pertinho o estilo de vida londrino – vá numa hora cheia, tipo entre 18:00 e 21:00, é mais legal pra ver o movimento da cidade e entendê-lo. Adorei ter minha experiência de pub inglês no Pride of Paddington, atendimento entusiasmado, cerveja boa e um fish and chips muito gostosinho pra acompanhar a situação! – Sim, foi lá que comi pela primeira vez o famoso fish and chips. Além de um filé grosso e suculento de peixe vem peixinhos pequenos inteiros também, adorei isso! A música é animada, as pessoas parecem estar numa festa onde todos se conhecem (apesar de não socializarem muito com estranhos, numa situação em pub todo mundo parece ficar mais a vontade e “solto”, gostei disso).

Endereço: 1-3 Crave Road Paddington, Londres. W2 3BP.

Clique aqui e acesse o site do Pride of Paddington

Essas experiências gastronômicas são uma forma de ir além do comum e entrar em contato com a cultura do local de diversos jeitos. Mas ela precisa ser feita com sensibilidade  – coma os pratos, olhe em volta, observe as pessoas, sinta toda a atmosfera enquanto o gosto da comida acontece. A experiência será plena. Isso é emocionante. Londres é linda e tem um gosto muito bom! Aproveite!

Como fazer brusqueta  de queijo branco e geleia de fruta. 

As minhas tardes de domingo sempre foram um pouco vazias, e no meio desse vazio nasce o convite de criar alguma coisa. A cozinha ajuda nisso. Na minha história, um pedaço de pão sempre rendeu algo. Tenho um grande carinho por fazer torradinhas, brusquetinhas, pedaços de pão com alguma coisa carinhosa e boa por cima. Ontem a tarde de domingo foi significada com essa brusqueta simples, mas deliciosa e marcante.

Ingredientes (as quantidades são totalmente à gosto e variam de acordo com a quantidade de brusquetas, use seu gosto e bom senso):

  • Fatias de pão
  • Queijo branco
  • Geleia de fruta
  • Azeite de oliva extra virgem
  • Folhas de hortelã para finalizar

Modo de preparo:

Pegue as fatias de pão, regue generosamente com azeite, coloque queijo branco e leve ao forno até dourar e o queijo amolecer. Tire e coloque um doce de fruta (pode ser qualquer doce/geleia de fruta que você tenha algum carinho, aqui eu usei uma de calafate (uma frutinha da Patagônia). Coloque folhinhas de hortelã, dá um frescor gentil. O azeite é importante pra dar umidade (visto que o queijo branco sozinho não faz isso) e o aroma do azeite fica ótimo com o doce de fruta. Escolha um bom, isso importa.Seja muito feliz comendo.

E ah,  o que na real preenche vazios não são as torradinhas, óbvio. Elas são uma delicia, mas o que preenche mesmo o vazio é a experiência criativa de fazer algo, mesmo que simples, com suas mãos, com seu tempo. Bon appétit.

Cinema e Gastronomia – Filme: “Okja” – Precisamos falar sobre.

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Falam muito sobre a crueldade do sistema industrial de carne, como os animais nascem, crescem, morrem e são considerados.  Mas ainda há um abismo entre o consumidor de carne e seu contato com o bicho – o bicho, não proteína (odeio esse termo que reduz o animal e tira a coisa “viva” e sagrada que ele é). Acho que é preciso visitar o bicho e sua vida para relembrar que o bicho existe, que o colocamos em um lugar quando escolhemos o que comprar e que assim, temos uma relação com esse bicho e somos responsáveis pelo seu destino. O filme Okja (Netflix, 2017) nos faz visitar o bicho, nos faz encontrar a conexão que temos com os seres vivos que dividem o planeta conosco. O preço de uma vida – Quando entramos em contato real com o animal fica ridículo dizer que o valor de sua vida se reduz ao preço do seu quilo no mercado. O filme Okja é delicado, sensível, parece um filme infantil, mas está longe de ser – aliás, o tom infantil que ele confere aos empresários da industria de carne talvez seja um convite à reflexão sobre a imaturidade e irresponsabilidade de um grupo de pessoas que constroem um desgaste e desequilíbrio da vida de um planeta que também são parte, aniquilando a relação genuína de coexistência que as espécies poderiam ter. Eu não sou vegetariano, não aponto maneiras únicas de viver em paz com o planeta e consigo mesmo, mas você não precisa ser vegetariano para achar assombroso como um bicho é tratado no confinamento. Se um dia eu deixar de comer carne, não será porque acho exatamente sujo comer um animal, mas talvez porque eu ache sujo o que a indústria fez com o animal, tirando qualquer chance dele ter uma vida digna e chegar até nós na cadeia de uma forma que não tira sua dignidade e valor – porque ele não é proteína, é uma vida, e nunca deveria ter deixado de ser visto como tal.

No filme, a confusa CEO de uma poderosa empresa apresenta ao mundo uma nova espécie animal que supostamente foi descoberta no Chile. Apelidada de “super porco”, ela é cuidada em laboratório e tem 26 animais enviados para países distintos, onde cada criador a receberia e cuidaria de acordo com a cultura local. Os animais espalhados pelo planeta seriam, após 10 anos, concorrentes de um concurso que elegeria o melhor “super porco”.  Depois dos 10 anos, o filme conta a história da jovem coreana Mija (Seo-Hyun Ahn), que convive desde a infância com um dos animais espalhados pelo mundo, a Okja, o super porco fêmea criado pelo seu avô. Ela cria um vínculo com o animal e quando está prestes a perdê-la devido à proximidade do concurso, Mija decide lutar para ficar ao lado dela, e acaba entrando em contato com a cruel realidade do sistema industrial de carne. Entre pessoas que alimentam esse sistema e pessoas que tentam trazer lucidez para esse trágico cenário, o filme nos emociona e nos incomoda – nos intima a pensar sobre.

A relação afetiva que Mija tem com o animal é uma maneira genial de nos sensibilizar, nos lembrando de que a carne vendida por aí é um bicho – e que os bichos podem se relacionar com nós humanos de maneiras intensas. Essa conexão afetiva constrói ao longo no filme um repúdio em nós ao modo como a indústria vê, considera e classifica os animais. Aquela estranha vergonha de fazer parte da sujeira que acontece no confinamento nasce na gente durante o filme – um sentimento importante de ser elucidado, que pode ganhar destinos importantes. E isso faz do filme um serviço ao planeta – porque sair do mecânico e pensar é sempre o mais difícil, mas quando as pessoas singelamente são convidadas a fazer isso, transformações importantes podem acontecer.

E um aspecto ainda mais genial do filme é o tom infantil que ele confere principalmente aos personagens que representam os empresários da indústria da carne – é possível ler nisso um recado nas entrelinhas – afinal, o modo como as indústrias tem se relacionado com o planeta, com foco sempre na produção capital, pode, de certa ótica, ser visto como infantil (busca de desejos cegos sem medir consequências), imatura e extremamente irresponsável, pois na real, isso tem levado à uma gradual doença dos ecossistemas que todos somos parte – é uma negligência que cava a própria cova, pois nós também somos o planeta. E é engraçado ver no filme os empresários com características de imaturidade, infantilidade, pessoas mimadas ou com dificuldades emocionais que dificultam sua consciência saudável das coisas – mesmo o filme sendo uma ficção, não é muito difícil conectar esse cenário ao nosso, em outros termos.

Precisamos assistir Okja de coração aberto, sem medo de encarar suas próprias responsabilidades – se não a gente fecha o olho e não vê direito o que o filme quer dizer. É importante saber aquilo que você escreve quando escolhe o que consumir. As coisas podem ser diferentes e suas escolhas são importantes. Existem muitos jeitos de comer um animal, existem muitos jeitos também de comer, há alternativas e muita gente séria enxergando coisas sérias. Okja é um presente, bem feito e talentoso, para nos alertar.

O filme é uma produção da Netflix e está até a data desse post disponível no seu catálogo.