Panqueca assada de queijo com geleia de fruta

Panqueca assada de queijo (hoje foi brie) com alguma geleia de fruta. Não importa o quanto a vida esteja esquisita, é muito reconfortante saber que se tivermos ovos, leite e alguma farinha, teremos panquecas e isso sempre significará uma chance singela para um recorte de paz no dia da gente. Acredito no potencial afetivo que as panquecas tem.

Como fazer:

Saia um pouco de tudo, respire o ar do seu tempo e então, numa tigela coloque 4 ovos, 1 pitada de sal e 50g de açúcar. Bata até ficar mais claro e fofo (com fouet, batedeira, tanto faz o caminho às vezes, contanto que você chegue lá em paz). Junte 2 colheres de sopa de farinha de trigo e 50g de farinha de amêndoas (se não tiver, substitua por 1 colher de sopa cheia de manteiga derretida mais 1/2 colher de sopa de farinha de trigo – não ficará a mesma coisa e com a farinha de amêndoas fica bem melhor, mas é um caminho possível, fazemos como dá e tudo bem). Incorpore. Junte 100g de creme de leite, 100 ml de leite e misture. Coloque toda a mistura em uma fôrma untada com manteiga e farinha e disponha por cima queijo (qual você quiser, eu amo que seja com brie e usei o da @queijosyema ) e também geleia de alguma fruta – quantidades à gosto, de acordo com seu olhar, vontade, intuição. Leve para assar em forno pré-aquecido à 180 graus por 30/40 min, até dourar e ficar firme. No que você fica pensando enquanto as coisas assam? Eu sempre penso no tempo… no tempo que as coisas levam para ficarem prontas.

Coma morno, ou frio. Com café ou outras bebidas que tenham sentido pra você hoje em dia.

Migas – Farofa de pão

Aquele pão velho, duro, de canto, que sobrou esquecido no armário. Normalmente você joga fora, o que é uma tristeza. Essa farofa é um destino muito digno para pães velhos. Coisas que parecem não servir mais ou ter um lugar bom ganhando uma chance de brilho e se transformando em algo incrível – amo ver isso acontecer (com pães velhos e também com pessoas).

Como fazer:

Corte pães velhos em cubos pequenos. Se quiser tirar a casca tire, mas eu gosto de coisas inteiras, nada podado. Leve ao forno quente até secar bem, dourar de leve. Triture tudo no liquidificador ou processador até virar uma farofa fina. Em um frigideira coloque manteiga (para cada 250g de pão, 1 colher de sopa de manteiga basta), pitada de sal e coloque a farinha de pão. Mexa em fogo médio até ficar absolutamente crocante e tostada. Espere esfriar e guarde em um pote. É bom com carnes, massas, sopas… com quase tudo, é uma alegria crocante muito bonita.

Moqueca baiana, axé!

Moqueca baiana, com o dendê profundo do Brasil que revela pra gente toda luz de Tieta, eta. Amo moqueca, amo dendê e a profunda história que ele guarda – é um ingrediente que simboliza muito bem a ancestralidade africana que faz imensa parte do desenho que nos compõe.

Eu faço minha moqueca assim:

Coloco Caetano, Gal ou Olodum pra tocar antes de mais nada, eu acho que isso importa muito e nenhuma moqueca dá tão certo sem a voz de algum baiano emocionante de fundo. Daí tempero 1kg de algum peixe branco fresco que nunca viu congelador na vida com uma mistura triturada de: alho, cebola, azeite, sal, cominho, pimentão, louro e limão. Deixo na geladeira por 1 hora.

Corto em rodelas: 1 pimentão verde. Uns 4 ou 5 tomates. Cerca de 1 cebola e meia.

Em uma panela que caiba toda emoção de uma moqueca, coloco um pouco de azeite de olive e dendê, umas poucos rodelas do tomates, da cebola e do pimentão, sal e pimenta e refogo uns 3 minutos. Então deito o peixe nessa cama e por cima faço camadas intercaladas da cebola, do tomate e do pimentão – em cada camada coloco pitadas de sal, pimenta e fios de azeite (monte de um jeito organizado e bonito, você não vai poder mexer enquanto cozinha). Coloco então o dendê (1/2 xícara de chá), o caldo de meio limão, alguma pimenta fresca picada e mais fios de azeite de oliva. Tampo e deixo cozinhar em fogo baixo para médio, por cerca de 40 min. Após esse tempo junto 200 ml de leite de coco, sacudo de leve a panela para misturar e tampo pra cozinhar mais uns 5 min. Finalizo com coentro picado. Pronto. Com arroz e farofa fica mara. Pode comer e requebrar – requebra sim, pode falar…

Ps: a última foto é o pote do tempero que usei pra temperar minha moqueca. Ganhei ele de presente da minha mãe – ela é uma baiana que adora fazer temperos, colocar em potes e dar de presente pras pessoas, e isso diz muito do lugar que ela vem.

Galette des Rois – Torta de amêndoas francesa do Dia de Reis

Galette des Rois – uma torta francesa à base de massa folhada recheada com creme de amêndoas (frangipane) que é incrível de boa e mais simples de fazer do que parece.

Ela é feita para a celebração do Dia de Reis, que os franceses chamam de “Epiphanie” – Epifania – a revelação do divino ao homem: o dia em que o Deus menino foi visitado pelos reis magos e visto pela primeira vez. Na França há uma tradição de esconder um pequeno objeto em uma das laterais da torta. Quem pegar a fatia com o objeto é coroado rei e tem um dia de majestade (com coroa e tudo – as confeitarias costumam vender a Galette des Rois com uma coroa de papel junto) e é o responsável por fazer a Galette no próximo ano. A origem dessa tradição é muito antiga, vem das festas pagãs romanas chamadas “Saturnales”, onde era escondida uma “fava” na refeição dos escravos condenados à morte, aquele que a encontrava era coroado e ganhava um dia de “fausto”, de rei, antes de voltar ao seu triste destino. Comer é sempre um ato histórico, receitas contam histórias mais antigas do que a gente pode imaginar e isso é uma das coisas que mais me fascina sobre cozinhar.

Como fazer:

1. Misture 125g de farinha de amêndoas, 125g de açúcar e 125g de manteiga em temperatura ambiente, até obter uma farofa úmida e solta.

2. Adicione 2 ovos, 1 pitada de sal, 1 colher de sopa de rum e outra de extrato de baunilha. Misture bem para incorporar. Deixe na geladeira 10 min.

3. Abra uma folha de massa folhada (de umas 250g) e corte num formato redondo. Coloque o frangipane todo no centro. Bata 1 ovo e pincela as bordas. Se for seguir a tradição: coloque um objeto gracioso em uma das laterais do círculo.

4. Cubra com outra folha de massa folhada (também de umas 250g) do mesmo formato. Aperte com um garfo as bordas para fechar bem. Ajeito as bordas fazendo dobrinhas fofas para cima. Decore como quiser (fiz uns riscos na massa sem cortar ela e folhinhas com as sobras). Pincele tudo com o ovo batido.

5. Asse em forno pré-aquecido à 200 graus por 15 minutos depois baixe para 180 graus e asse mais 10 minutos – ou até dourar. Bon appétit 🙂

Galette de morango (torta aberta rústica francesa de morangos)

Galette de morangos – uma torta francesa rústica, aberta, simples – ela dá pra gente mais do que a gente espera dela (entendemos isso na primeira garfada, quando flutuamos através de um prazer gentil para algum strawberry fields forever que existe dentro da gente).

Junte 1 e 1/3 de xícara de chá de farinha de trigo, 1 pitada de sal, raspas de meia laranja, 3 colheres de sopa de açúcar cristal e 80g de manteiga gelada cortada em cubos. Bata num processador (ou misture com as pontas dos dedos, incorporando a manteiga nos secos) até obter uma farofa. Adicione 3 colheres de sopa de creme de leite e 1 de água gelada, misture. A massa fica meio pegajosa mesmo, mas se ficar muito coloque um tico mais de farinha. Faça uma bola e coloque ela entre 2 folhas de papel manteiga ou filme e abra/aperte deixando no formato de um disco. Coloque na geladeira por 1 hora.

Tire a massa da geladeira, disponha em uma fôrma untada ou antiaderente, coloque morangos cortados no centro. Ajeite as laterais fazendo bordas. Leve para o congelador e deixe 10 minutos. Tire.

Misture 1/2 colher de sopa de manteiga derretida com 1/2 de açúcar, dissolva e regue os morangos com isso. Pincele as bordas com leite. Asse em forno pré-aquecido à 200 graus por cerca de 40 min ou até dourar as bordas.

Sirva morna ou fria, sozinha ou com sorvete, ou chantilly, ou com uma colherada de mascarpone (clique aqui e veja como fazer o seu mascarpone em casa).

Boa viagem ao seu Strawberry fields forever.

Vanillekipferl (Meia lua de baunilha) – biscoitos amanteigados de amêndoas e avelãs típicos da Áustria e Alemanha.

Vanillekipferl – um biscoito de natal muito popular na Alemanha e na Áustria. Seu nome quer dizer algo como “lua crescente de baunilha”. A experiência delicada e acolhedora que uma mistura de manteiga, farinha, amendôas e baunilha é capaz de criar fez deles meus favoritos nessa vida. Me traz algum alívio esperançoso comer eles. Não tô querendo dizer que biscoitos são capazes de me comover assim profundamente.
Na verdade eu acho que tô sim.

Agradeço essa receita à @leonay.melo , que também é desse tipo de pessoa que se comove com biscoitos.

Ingredientes:

  • 50g de farinha de amêndoa
  • 50g de farinha de avelã
  • 280g de farinha de trigo
  • 70g  de açúcar
  • 200g de manteiga sem sal (uso a da @queijosyema )
  • 2 gemas
  • 1 pitada de sal

Em uma noite de sua vida, separe um tempo e junte todos esses ingredientes numa tigela, até formar um bola firme. Envolva essa bola com plástico filme e deixe na geladeira, para que durma lá (pode ser 2 horas só de descanso, mas 1 noite fica melhor, sempre que conseguimos esperar o tempo das coisas ficarem prontas elas terão gostos e formas melhores).
No dia seguinte, tire a massa da geladeira uns 20 minutos antes de manusear. Pegue pequenos pedaços (estará dura, pode ser cortando com uma faca) e faça formas de meia lua – é um formato místico bonito para biscoitos, sempre achei. Asse em forno pré-aquecido à 180 graus, até quase dourar (eles não são de dourar muito). No que você pensa enquanto seus biscoitos estão assando e o cheiro começa a nascer?

Quando tirar do forno eles estarão ainda meio moles e sensíveis. Espere uns minutos e tire com cuidado da fôrma, com ajuda de um garfo. Ainda mornos, passe eles um por um em um mistura de: açúcar baunilhado com açúcar de confeiteiro (se você não tem açúcar baunilhado, você pode fazer o seu misturando açúcar com alguma forma de baunilha seca (em pó, favas secas trituradas, etc) e deixando num pote fechado 2 dias, para o açúcar ficar perfumado).

Sente num canto que você goste, coloque uma música que seja gentil pra você e faça um chá suave – tudo para viver direito a delicadeza dos biscoitos. Durante as mordidas prazerosas preste atenção, porque tem uma sensação bonita pra prestar atenção.

Risoto de funghi secchi com escalope de filé de mignon

Risoto de funghi secchi é intenso e avassalador. Comer ele acende alguma coisa na gente, deixa a gente intenso também, chega dar vontade de olhar pra vida e dizer aquilo que outro dia Marla de Queiroz disse: “Não me venha com meios-termos, com mais ou menos ou qualquer coisa. Venha à mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar”. É espetacular um risoto fazer a gente sentir essas coisas, eu penso.

Cogumelos tem algo de misterioso no seu aspecto e sabor, e eu acho isso bem inspirador. Amo usá-los para risotos, tenho uma receita para os frescos e outra para os secos. Os cogumelos frescos tem suavidade, gentileza, uma inocência fresca que conduz a gente para uma sensação delicada – e para manter isso uso no preparo do risoto caldo de legumes e vinho branco. Já os cogumelos secos são intensos, eles tem algo de paixão, não tem meio termo, conduzem a gente por uma conexão profunda, que nos enlaça e não há como escapar – e para manter isso uso no preparo do risoto vinho tinto e caldo de carne.

Clique aqui e veja ambas as receitas de risoto de cogumelos (fresco e seco)

Nesse prato, do lado, tem um escalope de filé mignon temperado com sal e pimenta, grelhado rapidamente na frigideira com azeite e coberto com um molho que é só manteiga, ervas, creme de leite, mostarda, azeite, sal e pimenta, tudo misturado e aquecido junto, rapidinho. Sinceramente, esse risoto sozinho já emociona demais, mas tem dias em que a intensidade é tanta que complemento o prato, pra simbolizar a hipérbole do meu ser.

Tomaticán – caldo de tomates, queijo e pão.

Tomaticán – um caldo profundo, lindo e bom de tomates com migalhas de pão e queijo. Aprendi a fazer no projeto onde cozinhei todas as receitas do livro “Todas as sextas”, da Paola Carosella – Clique aqui e veja tudo sobre isso. Desde então esse prato é o destino mais bonito que consigo pensar para tomates bem maduros, trabalhados pelo tempo. Depois de fazer muitas vezes, acabou que hoje faço de um modo um pouco diferente da receita original. É basicamente assim:

Aqueço uma panela e coloco azeite, junto cebola picada e refogo ela só um instante e junto alho (fresco cortado em lâminas), deixo refogar – mas sem dourar (se doura muda o sabor e esses detalhes importam). Junto então os tomates, picados, e tempero com: sal, pimenta (preta, caiena, ou dedo de moça), páprica doce e defumada (muita, uma orgia de pápricas) e cominho em pó. Cozinho na panela tampada até o tomate se desfazer e virar um purê com pedaços. Ajusto com água se precisar pra que seja de fato um caldo e junto migalhas de pão amanhecido. Deixo tudo cozinhar uns minutos para que o pão seja parte do caldo e desligo a panela, então coloco pedaços de algum queijo fresco (pode ser mozzarella de búfala, também fica ótimo com queijo minas). Finalizo com coentro ou manjericão fresco, e fios de algum azeite bem perfumado.

É isso. Parece pouco mas é tanto, mais do que a gente imagina. Eu e o @wallitostes decidimos que esse prato é a coisa feita de tomates que mais nos emociona. Ficamos muito felizes quando a noite é feita de Tomaticán.

Chocolate quente cremoso

Chocolate quente cremoso – clichê atemporal lindão que faz o tempo frio ter um porque. Facinho e realmente presta (nossa presta muito). É assim: Misture 150ml de leite, 150g de creme de leite e 150g de chocolate (qual quiser). Se quiser coloque algum perfume bonito (sempre coloco baunilha ou cardamomo em pó, meia colher de chá, também pode canela). Leve ao fogo médio, mexendo sempre. Quando estiver tudo incorporado e levantar fervura está bom. Se quiser mais grosso deixe reduzir de 1 à 2 min (não mais se não fica grosso demais socorro). Se quiser menos grosso coloque mais 50ml mais de leite na receita. Se quiser com toque de café substitua 40ml do leite por café. Simples e faz a gente tão feliz, dá vontade de beijar essa receita.

Cookie gigante de frigideira – O Cookão.

Cookão fácil para emoções rápidas que valem a pena (porque nem tudo que é rápido vale). A magia é assim:

Misture 1/3 de xícara de chá de açúcar mascavo com 1/2 de açúcar normal e 90g de manteiga sem sal amolecida, bata até ficar claro e fofo. Junte 1 ovo e se quiser extrato de baunilha à gosto e misture. Daí junte 1 xícara de chá de farinha de trigo e 1 colher de chá de fermento em pó, incorpore e então coloque 1 xícara de chá de chocolate em pedaços ou gotas (umas 180g). Misture. Unte uma fôrma (ou frigideira que vá no forno), espalhe a massa com amor e asse à 180 graus por 25 min ou até dourar levemente. Cookão pronto, se joga na felicidade simples verdadeira feita em poucos minutos.