Receita afetiva que une 2 mundos. Curau brûlée com crumble de canela.

Hoje foi um puta dia lindo. Fui pra cozinha com tudo que eu sou e fiz um prato que quando terminei me vi nele – sabe o quanto isso é emocionante? Eu tenho um compromisso e laço intenso com as coisas da minha terra, em especial as coisas da Bahia da minha mãe. Mas também tenho uma conexão profunda com as coisas da Europa, que na minha infância minha madrasta me ajudou a conhecer. Em especial os detalhes franceses me emocionam. E é assim porque meus caminhos fizeram a história assim – os lugares de amor que ocupei me trouxeram essas referências. É uma história longa, não dá pra contar hoje, o que eu queria contar é que hoje o curau brûlée com crumble de canela que fiz é uma foto do mais profundo que me compõe. Eu suspeito que essa será a receita mais afetiva que compartilhei com vocês até agora.

O curau é com uma textura mais cremosa, que se aproxima do “crème brûlée” francês. O gosto lindo da canela vem através de uma farofa, o crumble, dando junto um crocante que casa lindo com o curau cremoso. O milho, que é uma grande referência da cozinha da minha família (e do meu país), usado com influências francesas. Estou tão feliz com esse prato. Uma mistura de detalhes franceses com marcas profundas do paraíso tupi-guarani – esse prato é isso, eu sou isso.

Ingredientes (rende 5/6 porções):

Para o curau:

  • 4 espigas de milho (ou o suficiente para encher 3 xícaras de chá com grãos debulhados)
  • 2 xícaras de chá de leite
  • 3/4 de xícara de chá de açúcar
  • 5 colheres de sopa bem cheias de creme de leite
  • Um pouco de açúcar para polvilhar e fazer o “brûlée”.

Para o crumble de canela:

  • 70g de açúcar
  • 110g de farinha de trigo
  • 65g de manteiga gelada
  • 3/4 de colher de sopa de canela em pó

Modo de preparo do curau:

Descasque as espigas, tirando toda palha e cabelos (se quiser, guarde alguns pedaços de palha para montar o prato, decorando). Tire os grãos das espigas, com uma faca ou utensílio específico, caso tenha. Coloque em seguida todos os grãos debulhados no liquidificador e acrescente o leite. Bata bastante até tudo estar bem processado e homogêneo.

Em seguida, coloque uma peneira sobre uma panela e peneire a mistura, para remover o bagaço do milho. Aperte bem na peneira para extrair o máximo de liquido possível. Leve então esse liquido ao fogo médio e acrescente o açúcar. Comece a mexer com um fouet, sem parar, enquanto o cozimento acontece. Quando levantar fervura, cozinhe por mais 5 minutos. O curau engrossa rapidinho, quando engrossar mexa com fervor, para evitar que empelote ou grude no fundo da panela, se perceber que isso está acontecendo retire do fogo um instante e bata bem com o fouet até ficar cremoso e uniforme, e então volte ao fogo. Após levantar fervura e após os 5 minutos de cozimento, desligue o fogo e acrescente o creme de leite, mexa bem.

Coloque em um refratário ou em potinhos individuais e leve para gelar por pelo menos 1 hora.

Modo de preparo do crumble de canela:

Em uma tigela, misture todos os ingredientes, esfarelando a manteiga com a ponta dos dedos para que ela se una aos demais ingredientes, construindo uma farofa. Manuseie o mínimo que puder, para evitar que a manteiga derreta muito. Após estar tudo misturado, com aspecto de uma farofa grossa e úmida, leve para a geladeira e deixe lá por 30 minutos (isso é importante para garantir a crocância legal do crumble). Enquanto isso, pré-aqueça o forno à 160 graus. Após o descanso coloque a farofa em uma fôrma, espalhando nela toda. Leve para assar por cerca de 10 minutos, ou até estar dourado. Retire do forno e deixe esfriar.

Montagem:

Você pode fazer o brûlée (casquinha de caramelo bem fininha que ficará na superfície do curau) direto nos potinhos em que deixou o curau esfriando ou pode, como eu gosto de fazer, tirar uma colherada bem cheia de curau, pôr em um prato sob uma palha de milho (veja na foto acima) e fazer o brûlée nele. Seja como for, o brûlée se faz assim:

Polvilhe uma fina camada de açúcar sob o curau e queime para virar caramelo – Você pode fazer isso de 2 jeitos: usando um maçarico culinário (mais prático e com resultados melhores), ou usando uma colher de ferro aquecida. Se usar o maçarico é só ir fazendo com ele movimentos circulares até “queimar” o açúcar e deixar ele no tom da imagem acima (sem queimar muito para não ficar amargo, tem que ficar bronzeadinho só, 10 segundos de maçarico em cada um é suficiente). Se for usar uma colher de metal faça da seguinte forma: Esquente ela na chama do seu fogão a gás até que ela esquente bastante (o metal ficará num tom azul e meio escurecido). Após aquecer encoste a colher no açúcar e faça movimentos circulares, até caramelizar toda a superfície. Antes de aquecer a colher novamente lave-a muito bem para não ficar resíduos.

Pronto, o curau está com o brûlée. Sirva com o crumble de canela (quebre em pedaços, eu gosto de deixar bem trituradinho). É realmente bom.

Espero que gostem. Essa é uma receita valiosa pra mim.

Bon appétit.

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Cuidados com a carne vermelha antes de cozinhá-la (Qual escolher, como e quando temperar e outros detalhes pré-cozimento). Mas antes, lembrar que a carne é um “bicho”. Respeito e coerência.

Quando nos aproximamos mais do que as coisas realmente são a tendência é respeitá-las mais. A minha relação com um pedaço de carne hoje em dia sempre começa pelo respeito – toda vez que toco uma carne, eu respiro fundo, penso, e agradeço. O bicho não é”um pedaço de proteína”. É um bicho. E se você quer comer um pedaço de carne com honestidade tem que lidar com isso. Fico um pouco bravo com o hábito de se referir à carne como “proteína”, é reduzir e mascarar demais. É um bicho gente, nada vai mudar isso. Se você entende isso e se responsabiliza pela sua escolha, você come carne de um jeito coerente, respeitoso. Quando eu lembro que é um bicho eu penso no modo como o bicho chega até mim, penso na origem da carne que compro (e escolher a origem certa pode mudar muita coisa). Quando lembro que a carne é um bicho penso com muita seriedade em como vou temperar, cozinhar e comer – todo processo se torna um ritual sagrado e antigo, que eu só construo com cuidado e respeito se lembro que estou cozinhando um animal – e isso é uma coisa séria, se for para fazer, que seja com respeito, coerência e dignidade. Por isso saber como tratar direito a carne é muito, muito importante.

Eu aprendi com minha família, com as minhas leituras e com a Paola Carosella a ter alguns cuidados e gentilezas na hora de lidar com uma carne, e quero compartilhar com vocês. Aqui vou me ater a dicas sobre carnes vermelhas, em especial: Miolo de acém, costelas, contrafilé, filé de costela (o famoso bife ancho ou entrecôte) ou outros cortes que tem gorduras em proporções semelhantes a desses. No geral essas dicas servem para outras carnes também (até peixes e aves), mas é legal sempre pensar se algum tipo de carne não exige cuidados mais específicos. Vamos lá:

A origem da carne: Eu sei que isso é muito difícil, mas é muito importante, e você precisa saber que é importante. De onde vem a carne que você compra? Se puder entrar em contato com a história da carne e saber como o produtor cria o “bicho”, é algo bem valioso e bonito da sua parte. Talvez você possa, a partir disso, escolher produtores que criem melhor que outros. Isso , além de bonito, também te dá mais tranquilidade e confiança no que você coloca na mesa para sua família comer.

Não comprar carne congelada ou congelar a carne que você comprou. Quando a carne é congelada as fibras se alteram e muita coisa se perde – por exemplo, a capacidade da carne de reter suco e ficar suculenta e incrível (perceba que carnes que foram congeladas tendem a ficar secas após cozidas). Compre fresca e faça fresca.

Temperar com antecedência. Tem muitas teorias sobre isso e cada uma tem seu ponto de vista coerente, porém aprendi isso com gente que respeito muito (minha mãe e Paola Carosella) e também testei muito, e conclui que temperar a maioria das carnes com antecedência não ressaca a carne (como muitos acham) e confere à ela uma complexidade de sabor diferente. O tempo de antecedência para temperar depende da carne, mas carne de boi no geral tempero com 12 /24 horas de antecedência, sempre deu certo.

Temperar com o que e quanto de sal? A quantidade de sal depende de cada carne e dos hábitos de cada um. A Paola Carosella no livro “Todas as sextas” indica uma colher de sobremesa cheia para cada quilo de carne. Tenho usado essa proporção e tem dado muito certo. Gosto muito de temperar carnes vermelhas com um grande mix de ervas verdes frescas e azeite de oliva extravirgem. Faço uma mistura com o que tenho e gosto de ervas, azeite, o sal e pimenta. Que tempero pôr é muito particular às vezes. Seja lá o que escolher como erva e tempero, todos eles vão junto para ficar ali com a carne por longas horas, antes de cozinhar.

Preste atenção no tamanho dos pedaços de carne que você assa. É muito legal quando a carne tem uma proporção boa de crosta tostada por fora e interior rosado por dentro – uma peça muito grande assada de uma vez gera muito miolo rosado e pouca crosta. Fracione, é interessante, você terá mais equilíbrio e todos que comerem com você terão partes tostadas e partes suculentas do interior. O tamanho da peça de carne faz bastante diferença.

Preste atenção na temperatura em que a carne está na hora de cozinhar ela. Quando você leva ao forno, panela ou grelha uma carne gelada, há um desequilíbrio no tempo que o exterior e interior dela vão cozinhar, normalmente queima por fora e não atinge o ponto certo dentro. Sempre é legal tirar a carne da geladeira umas 2 ou 3 horas antes de assar para ela atingir temperatura ambiente, dá mais certo e o cozimento é mais simples e correto.

No geral, essas são regras primordiais no trato inicial de uma carne. Pensar qual comprar, em que estado comprar, em que tamanho cortá-la, como e quando temperar temperar e em que estado deixá-la até o momento de cozinhar. Depois disso vem o cozimento, que será feito de acordo com a receita que você irá seguir. Mas essa preparação e cuidado antes do cozimento faz bastante diferença, eu acredito muito.

Em breve vou compartilhar uma receita de carne assada – de um jeito simples e muito grandioso ao mesmo tempo, é de emocionar.

Agradeça o bicho. E não esqueça – a carne é um bicho.

O que você faz acontecer quando você compra de pequenos produtores? Uma memória afetiva da minha infância. 

Durante minha infância, minha mãe sempre fez doces para vender. Esse era um trabalho que nos ajudava muito. Em uma páscoa, quando eu tinha 12 anos, fizemos ovos. Era minha mãe, uma tia e eu, imersos no chocolate, horas e horas fazendo ovos, trufas, bombons e pirulitos. Tivemos mais encomendas do que imaginávamos e ficamos tão felizes – elas trabalhavam muito e muito alegres, pra mim era mágico estar ali, todo aquele trabalho era feito com uma energia profunda, cada pedido importava muito pra gente. Quando entregávamos cada encomenda era com um orgulho gigante, era nossa obra, feita pelas nossas mãos. Naquela páscoa o dinheiro das vendas foi muito importante pra nós. Por conta da ajuda que dei, minha mãe e minha tia me deram um valor – eu fiquei tão feliz, lembro que fui em uma livraria e comprei 3 livros que me fizeram companhia por alguns meses, foi bem especial. Estou falando tudo isso para você entender o que é comprar de pequenos produtores – seu dinheiro promove esse tipo de coisa e incentiva algo muito valioso. Fora que comer o que é feito por pessoas e não por máquinas é sempre outra coisa. Nessa foto eu estou em casa, fazendo “à mão” meus chocolates para presentear quem amo. Vou compartilhar algumas receitas com vocês, mas caso não possam fazer seus próprios ovos, pensem bem onde vocês irão comprá-los. Vou também compartilhar no Instagram essa semana o trabalho de alguns produtores pequenos que conheci, trabalhos  de gente que faz com afeto e verdade o que faz. Enfim. O consumo nessas épocas e o dinheiro que a gente gasta pode alimentar coisas bem boas. Pense bem antes de comprar, pense. Logo logo dicas para uma páscoa artesanal, humana e afetiva.

Cozinhei as 94 receitas do livro “Todas as sextas”, de Paola Carosella. Finalização do projeto “Gratidão de todas as sextas”.

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Finalizei o projeto “Gratidão de todas as sextas”. Cozinhei as 94 receitas do livro “Todas as sextas”, de Paola Carosella. Me comprometi, no dia 11/11/2016 (clique aqui e veja como tudo começou) a cozinhar todas as receitas e ir postando (no meu blog e Instagram) toda sexta-feira o resultado daquilo que foi feito na semana, e assim foi.  Estou aqui pensando em como, em um texto de finalização, significar e registrar tudo que esse projeto foi, daí me ocorre que faz sentido começar esse texto falando do fim do projeto, da receita 94/94: O Pão Arturito – Eu levei 15 dias e 17 horas para fazer essa receita (o pão, em muitos sentidos, é o senhor do tempo), e quando acabei consegui firmemente compreender a maior lição do livro: O valor do tempo. É isso. É sobre isso que o livro é: Tempo, vida e cozinha – porque foi uma COZINHEIRA (em caps, para ser verossímel) que escreveu sobre tempo e vida, e ela fez isso através da cozinha.

O livro “Todas as sextas” é o primeiro livro de Paola Carosella. Ele é composto de um relato autobiográfico profundo e de 94 receitas – cada uma delas trazendo uma reflexão e uma conexão com a história da cozinheira. Não é um livro culinário qualquer.  As receitas nos fazem questionar nossas escolhas e hábitos, nos incomodam e nos movimentam. Para prepará-las tudo começava com a busca pelos ingredientes,  e essa era uma etapa muito séria, porque Paola no livro é convicta ao falar da importância dos ingredientes – tinham que ser ovos de galinha de vida digna, carnes de animais que também tiveram vidas dignas, frutas e legumes plantados e cuidados por pessoas que fazem do jeito honesto o que fazem, farinhas vendidas por pessoas que tenham “olhos de pessoas do bem”, confiáveis – e eu não estava afim de contrariar as indicações, eu queria fazer direito para aprender de verdade o que estava ali sendo dito, então foram muitas caminhadas por São Paulo para encontrar os ingredientes certos. Após ter encontrado tudo para cada receita, na hora de cozinhar eu tinha que escolher uma panela que eu tivesse carinho (afeto importa), tinha que tratar os ingredientes respeitando seu tempo de descanso (alguns precisavam de 1 hora, outros de 24 horas, outros de 15 dias). Eu também tinha que entender o valor do fogo baixo e do tempo lento de cozimento, nada de pressa e pressão. Para servir o prato, tinha que ser também numa louça bonita – eu tinha que ser atencioso e gentil com a refeição, a cada instante – e comer tudo isso no final era quase sempre uma oração, uma recompensa e reflexão profunda do que implicava todo o processo – e do que ia sendo transformado em mim enquanto eu transformava ingredientes desse jeito.

Cozinhar desse jeito muda a gente, não tem como sair igualzinho. Para fazer tudo isso antes de qualquer coisa eu tive que “parar” – frear a velocidade desse mundo rápido e agressivo que vivemos para experimentar, através das receitas, uma outra experiência de tempo – um tempo lento, que corre diferente, que precisa respeitar o tempo dos processos naturais, um tempo que me fez pensar em como eu estava usando e experimentando o próprio tempo da minha existência. A verdade é que eu entendi mais do que nunca o quanto perdemos por causa da nossa pressa, da nossa incompreensão das coisas e do tempo que elas precisam levar para ficarem prontas. Cozinhando assim, eu tive então “tempo” de pensar na minha relação com a natureza quando escolhia ingredientes e quando os tratava de determinado modo, tive tempo de compreender o que de bonito acontece quando esperamos, tive tempo de me acalmar depois de dias complicados enquanto estava ali, cortando uma cebola, por exemplo.  Tive tempo de pensar no quanto minhas escolhas impactam o mundo que eu habito. Tive tempo de pensar nos meus afetos e elaborá-los, enquanto construía uma refeição com minhas mãos. Tive tempo, inclusive, de me lembrar do quanto a cozinha é simbólica na minha vida e é, há tantos anos, o meu divã – lugar onde eu sempre pude me encontrar em paz comigo mesmo.

O livro fala muitas vezes da importância de fazer artesanalmente – com as nossas mãos – aquilo que vamos comer. Eu acredito de verdade que existe uma via terapêutica em fazer artesanalmente algo que normalmente compramos pronto no mercado. É uma via que te permite autonomia e apropriação de um processo que normalmente você deixa que façam por você. Isso também é transformador, existe uma auto-realização grande em terminar uma refeição e falar no final: Eu que fiz, cada detalhe, do inicio ao fim, eu construí e transformei isso, estou implicado na coisa. A gente registra no nosso psiquismo coisas muito importantes quando nos vemos implicados nas coisas.

Fazer as receitas do modo como Paola conta também me permitiu pensar em tantos aspectos sociais, no modo como temos tratado o mundo e como temos nos relacionado com as pessoas. Quando escolho comprar de um pequeno produtor o que meu dinheiro incentiva? Quando escolho alimentos orgânicos o que ajudo a manter com meu ato? Há muito a se pensar, comer é um ato político e nossas escolhas conduzem o lugar social das coisas. Temos mais poder do que pensamos. O livro “Todas as sextas” também é um alerta, sutil e gentil, mas um alerta.

Quando comecei o projeto, estava envolvido por um sentimento muito forte de gratidão. Ao ler o inicio do livro, que é composto de um relato autobiográfico de Paola, muitas coisas na minha história foram tocadas. O mais legal de admirar pessoas é em algum momento notar o que essas pessoas que admiramos podem nos revelar de nós a nós mesmos – se conduzirmos de uma forma boa, admirar alguém é algo que revela algo muito importante sobre nós,  algo que muitas vezes não reconhecemos como nosso, mas que é. O outro ajuda a gente a notar. No meio desse insight e gratidão por Paola ter feito uma obra tão generosa e honesta, eu quis cozinhar o livro inteiro. Era para agradecer, para aprender, para ter um propósito novo. Hoje sei que era mesmo preciso cozinhar o livro todo, porque era preciso que eu me encontrasse com tudo isso. Me sinto mais convicto em relação ao modo como escrevo, com cozinho e até como faço meu trabalho como psicólogo – pude pensar em tudo que a cozinha, de um jeito metafórico e profundo, me faz pensar – porque quando a gente entende melhor o valor do tempo, tudo muda.

O projeto “Gratidão de todas as sextas” nasceu de um encontro – do meu com o livro. Mas ele gerou muitos outros encontros. Através do meu Instagram, milhares de pessoas acompanharam as postagens e compartilharam comigo o que sentiam com elas. A troca de narrativas que o projeto gerou e o alcance que ele teve me surpreendeu e me emocionou muito. Então tudo começou a ser algo maior e com mais sentido, onde quem ia acompanhando ia se transformando junto comigo, repensando sua relação com a comida e com o tempo. O projeto foi feito de encontros que deixaram muitas marcas. Pensar nisso me emociona muito, vai pra sempre emocionar.

Existe sim uma semelhança nesse projeto com o que Julie Powell fez com o livro de receitas de Julia Child – Vemos essa história no livro e filme Julie & Julia, que conta como Julie decidiu cozinhar as 524 receitas do livro de Julia em 365 dias. Essa história também me inspira, porque assim como Julie eu também fui salvo de uma vida um pouco triste e sem cor quando decidi que precisava cozinhar e escrever (quando o blog nasceu, aliás). Mas aqui, Paola foi minha Julia e “Todas as sextas” foi meu “Mastering the Art of French Cooking”.

Enfim, é isso. Acabou as 94. Algumas acertei muito que pulei de emoção, outras errei bastante. Todas me ensinaram muito. Eu tenho tanta coisa ainda pra dizer desse projeto, mas acho que isso não se encerra nunca, não cabe num texto, cabe dentro de mim e da bagagem que levo agora. Eu tive sucesso no projeto – mas um conceito diferente de sucesso. No mundo onde tempo é dinheiro, sucesso tem a ver com velocidade, rapidez, lucro em menos tempo e etc – e esse tipo de “sucesso” pode ser um slogan aniquilador e vazio. O sucesso que eu tive no projeto veio da calma e do tempo que corre diferente, veio das caminhadas longas por São Paulo buscando ingredientes, veio das tardes calmas esperando a panela cozinhar durante horas, do tempo que eu tinha enquanto esperava perto da panela e podia pensar nas coisas da vida, veio da emoção de compartilhar, veio da alegria de sentar e comer na mesa todas as receitas com alguém que eu amava. O sucesso veio de parar, respirar fundo, fazer, depois apreciar, e guardar pra sempre. O nome dessa história é gratidão. Como em todos os dias em que cozinhei cada uma das receitas, hoje eu só queria agradecer.

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Olhando na categoria do blog chamada “Gratidão de todas as sextas” você encontra todas as postagens, de cada uma das receitas. No meu Instagram também (@rodrigo.vilasboas) tem tudo lá. Também é possível encontrar os posts na hashtag #gratidaodetodasassextas .

 

Cinema e Gastronomia – Filme: “Okja” – Precisamos falar sobre.

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Falam muito sobre a crueldade do sistema industrial de carne, como os animais nascem, crescem, morrem e são considerados.  Mas ainda há um abismo entre o consumidor de carne e seu contato com o bicho – o bicho, não proteína (odeio esse termo que reduz o animal e tira a coisa “viva” e sagrada que ele é). Acho que é preciso visitar o bicho e sua vida para relembrar que o bicho existe, que o colocamos em um lugar quando escolhemos o que comprar e que assim, temos uma relação com esse bicho e somos responsáveis pelo seu destino. O filme Okja (Netflix, 2017) nos faz visitar o bicho, nos faz encontrar a conexão que temos com os seres vivos que dividem o planeta conosco. O preço de uma vida – Quando entramos em contato real com o animal fica ridículo dizer que o valor de sua vida se reduz ao preço do seu quilo no mercado. O filme Okja é delicado, sensível, parece um filme infantil, mas está longe de ser – aliás, o tom infantil que ele confere aos empresários da industria de carne talvez seja um convite à reflexão sobre a imaturidade e irresponsabilidade de um grupo de pessoas que constroem um desgaste e desequilíbrio da vida de um planeta que também são parte, aniquilando a relação genuína de coexistência que as espécies poderiam ter. Eu não sou vegetariano, não aponto maneiras únicas de viver em paz com o planeta e consigo mesmo, mas você não precisa ser vegetariano para achar assombroso como um bicho é tratado no confinamento. Se um dia eu deixar de comer carne, não será porque acho exatamente sujo comer um animal, mas talvez porque eu ache sujo o que a indústria fez com o animal, tirando qualquer chance dele ter uma vida digna e chegar até nós na cadeia de uma forma que não tira sua dignidade e valor – porque ele não é proteína, é uma vida, e nunca deveria ter deixado de ser visto como tal.

No filme, a confusa CEO de uma poderosa empresa apresenta ao mundo uma nova espécie animal que supostamente foi descoberta no Chile. Apelidada de “super porco”, ela é cuidada em laboratório e tem 26 animais enviados para países distintos, onde cada criador a receberia e cuidaria de acordo com a cultura local. Os animais espalhados pelo planeta seriam, após 10 anos, concorrentes de um concurso que elegeria o melhor “super porco”.  Depois dos 10 anos, o filme conta a história da jovem coreana Mija (Seo-Hyun Ahn), que convive desde a infância com um dos animais espalhados pelo mundo, a Okja, o super porco fêmea criado pelo seu avô. Ela cria um vínculo com o animal e quando está prestes a perdê-la devido à proximidade do concurso, Mija decide lutar para ficar ao lado dela, e acaba entrando em contato com a cruel realidade do sistema industrial de carne. Entre pessoas que alimentam esse sistema e pessoas que tentam trazer lucidez para esse trágico cenário, o filme nos emociona e nos incomoda – nos intima a pensar sobre.

A relação afetiva que Mija tem com o animal é uma maneira genial de nos sensibilizar, nos lembrando de que a carne vendida por aí é um bicho – e que os bichos podem se relacionar com nós humanos de maneiras intensas. Essa conexão afetiva constrói ao longo no filme um repúdio em nós ao modo como a indústria vê, considera e classifica os animais. Aquela estranha vergonha de fazer parte da sujeira que acontece no confinamento nasce na gente durante o filme – um sentimento importante de ser elucidado, que pode ganhar destinos importantes. E isso faz do filme um serviço ao planeta – porque sair do mecânico e pensar é sempre o mais difícil, mas quando as pessoas singelamente são convidadas a fazer isso, transformações importantes podem acontecer.

E um aspecto ainda mais genial do filme é o tom infantil que ele confere principalmente aos personagens que representam os empresários da indústria da carne – é possível ler nisso um recado nas entrelinhas – afinal, o modo como as indústrias tem se relacionado com o planeta, com foco sempre na produção capital, pode, de certa ótica, ser visto como infantil (busca de desejos cegos sem medir consequências), imatura e extremamente irresponsável, pois na real, isso tem levado à uma gradual doença dos ecossistemas que todos somos parte – é uma negligência que cava a própria cova, pois nós também somos o planeta. E é engraçado ver no filme os empresários com características de imaturidade, infantilidade, pessoas mimadas ou com dificuldades emocionais que dificultam sua consciência saudável das coisas – mesmo o filme sendo uma ficção, não é muito difícil conectar esse cenário ao nosso, em outros termos.

Precisamos assistir Okja de coração aberto, sem medo de encarar suas próprias responsabilidades – se não a gente fecha o olho e não vê direito o que o filme quer dizer. É importante saber aquilo que você escreve quando escolhe o que consumir. As coisas podem ser diferentes e suas escolhas são importantes. Existem muitos jeitos de comer um animal, existem muitos jeitos também de comer, há alternativas e muita gente séria enxergando coisas sérias. Okja é um presente, bem feito e talentoso, para nos alertar.

O filme é uma produção da Netflix e está até a data desse post disponível no seu catálogo.

O que é plantar a sua comida? 

O alface crescendo na minha horta, no quintal de casa, que observo todo dia da janela do meu quarto. Poucas coisas são tão valiosas quanto ver seu alimento crescer, em uma terra honesta, limpa, que produz um alimento honesto, real e limpo. A terra da minha horta é simbólica, ela é cuidada e tem a marca de muitas mãos generosas e carinhosas – não cuido dela sozinho. Nessa terra está escrito o conhecimento e afeto que minha família tem por terra e mato, está nela nosso apego à natureza que pra gente é uma espécie de oração. Acreditamos no poder e amor infinido que vem da terra, acreditamos muito. A horta do meu quintal produz alimentos que compartilhamos, com familiares e vizinhos, não nos custa compartilhar e o coletivo é sempre gratificante e belo. Já pensou em ver sua comida crescer e acompanhar a engenhosidade emocionante da natureza no seu quintal? Ou já pensou em comprar comida com esse selo de qualidade (limpa, de terra e mãos honestas e amorosas)? Já pensou em fazer com seus vizinhos uma horta coletiva num cantinho qualquer? O que chamamos de alimento orgânico tem uma história muito importante e linda por trás. O que seu corpo recebe, o que vai para a mesa da sua família, os hábitos sociais e comunitários que você pode construir através da comida – muito está a seu alcance fazer e transformar. Repense, reescolha, produza diversas marcas boas enquanto se alimenta. Plantar o meu alface me traz uma refeição linda, viva e saudável, mas também me traz emoções bonitas, contatos com a natureza (e um maior respeito à ela), me traz a chance de compartilhar, me traz iluminação, me traz o Deus que acredito e vejo no natural do mundo (na terra…), me traz uma lição sobre o tempo das coisas e me faz pensar no que compõe minhas escolhas. Comer é um ato social e  psicológico, há muito dentro disso. Pensem. Sou tão grato ao pé de alface que cresce na terra do meu quintal e ajuda a crescer em mim hábitos bons, vivos, plenos. A fertilidade do bom. Da terra pra dentro de mim, de dentro de mim para os outros. Todos nós. Plante alguma coisa para comer alguma vez na vida.

Ovos de galinhas de vida digna. Qual impacto da sua escolha de ingredientes?

Galinhas de vida digna. Paola Carosella usa muito esse termo em seu livro “Todas as sextas”, nos convidando à refletir sobre a nossa escolha de ingredientes. Quanto mais penso sobre esse termo, mais o acho lindo, mais ele me emociona. Galinhas de vida digna são aquelas criadas soltas, em lugares bons, que tenham a chance de ter adequados ciclos de descanso,  de alimentação, que possam dormir no escuro e ter a melhor vida que puderem. Muito diferente da triste vida de galinhas comerciais, que vivem em gaiolas, sem paz, sem descanso adequado, que muitas vezes são torturadas, levando uma vida sem dignidade e respeito. Infelizmente, a maioria das galinhas do mundo tem uma vida muito triste, mesmo sendo um bicho tão generoso, que nos fornece tanto – já parou pra pensar o tanto de pratos e preparos que levam ovos? Estão na base de qualquer cultura gastronômica! Os ovos são tão importantes para gente, e nós, como agradecemos as galinhas? Enquanto elas nos dão tanto, lhes damos de volta abusos, desequilíbrios e vidas muito tristes.

Devemos muitas desculpas às galinhas, e às tantas outras espécies que escravizamos – que não são só galinhas. Por interesses gastronômicos e econômicos ainda escravizamos seres da nossa própria espécie – você já estudou de onde vem o cacau das marcas de chocolate que você consome? A história de muitas crianças escravizadas na África fazem parte dele, por exemplo. Comer é maravilhoso, o sabor do mundo é, mas infelizmente há muito sofrimento no meio desse prazer. Não precisava ser assim. A natureza é perfeita, brilhante e generosa, mas nós não somos nem um pouco isso em troca com ela. Recebemos tanto, mas estamos tão acostumados a extrair, abusar, desequilibrar. Por isso falo tanto de gratidão, por isso gratidão é tão importante, ela nos move a pensar sobre escolher melhor, respeitar,  ser generoso, mudar – o que é uma dura tarefa. Mas existe um caminho. Precisamos pensar, com lucidez e gratidão, sobre as galinhas, sobre nós, sobre de onde vem as coisas e quais histórias ajudamos a manter e construir.

Os ovos na prateleira dos mercados, as carnes, as plantas, os chocolates – tudo vem de um lugar e tem uma história para chegar até nós. Quantos animais vivem (e morrem) para que tenhamos todos esses alimentos? Não dá pra contar. Li recentemente um artigo sobre a vida de galinhas comerciais, li mais algumas coisas, assisti alguns documentários de pessoas sérias e preocupadas. Pensei na importância de termos consciência da origem dos ingredientes, para assim termos condições e elementos para refletir, nos emocionar e escolher melhor o que comemos. Que história ajudamos a manter com nossa escolha? Que história queremos “comer” e ser parte? Sônia T. Felipe, escreve um interessante artigo intitulado “O sono das galinhas”, nele ela se apega a esse aspecto de suas vidas para descrever a crueldade da criação comercial de galinhas. Segundo Sônia, as galinhas que podem viver livres e seguir seus ciclos naturais costumam passar 10 ou 12 horas por dia dormindo no escuro, no silêncio, descansando sua hipófise dos estímulos produzidos pelos raios solares e produzindo hormônios que descansem seu organismo. Já na cruel realidade do confinamento industrial, as galinhas são apenas máquinas de produção. A  luz desses ambientes é mantida acesa 22 horas por dia – o que promove uma sobrecarga de ovulação (para produzirem mais ovos) – o que também é estimulado com intensidade pelas rações alteradas, alimento bem diferente do que elas escolheriam se fossem livres. Comem e vivem como máquinas, abastecidas para ovular, e ponto. Vivem empilhadas, sem espaço, sem sono, sem escuro, sem alimentação natural, sem silêncio, respiram um ar alterado que promove uma série de desequilíbrios em sua saúde. Em um ambiente tão desesperador elas acabam atingindo um nível estressor tão grande que se tornam canibais – daí, para evitar perdas, eles cortam e queimam seus bicos, sem anestesia e de maneira precária, causando dores que podem se estender por muito tempo. Muitas dores juntas. Uma vida triste e cruel que dura cerca de 4 anos, quando estão “gastas”, é hora de serem degoladas.

Pense em como é ficar apenas uma noite sem um descanso adequado, um dia sem um momento de tranquilidade ou alimentação boa. Pense em uma vida inteira assim. Bom, não dá nem pra pensar, não é? O “sono das galinhas” – a inexistência do sono, um direito e necessidade natural – é apenas uma das dignidades vetada a essa espécie que escravizamos, pois há diversas outras torturas que elas são expostas para chegar de diversas formas e ofertas às prateleiras dos supermercados.

As galinhas e de onde vem os ovos são apenas um exemplo, porque se fossemos falar em detalhes de toda escravidão que nós humanos submetemos tantas espécies – inclusive a nossa – seriam muitas, muitas páginas. Tristes páginas. Por vida digna, entende-se animais que possam viver livres seus ciclos naturais, ter paz – mesmo sendo de alguma forma servidores de nossos prazeres. É muito mais digno e respeitoso consumir o ovo da galinha enquanto oferecemos à ela ao menos uma vida boa, a melhor que possa ter. Há uma maneira mais digna de consumir produtos de origem animal, uma maneira equilibrada que respeite o todo, uma maneira mais ética (temos uma luz crescente hoje que é a produção orgânica de alimentos). Comer um animal (ou um derivado dele) de vida digna é diferente de comer um animal de vida triste, que não teve o melhor possível enquanto vivo. Aliás, animais esses que temos chamado de “proteínas” – odeio esse termo que desnaturaliza uma vida – são bichos! Esse termo talvez sirva para alimentar aquela alienação confortável, que nos mantém longe da ideia de que a carne vem de uma morte, de um bicho vivo, muitas vezes de um bicho triste de um sistema cruel – gostamos de nos esconder da verdade inconveniente. Se é proteína, e não um bichinho morto, tudo bem ir pra minha panela. Quer comer, coma encarando o que é de verdade. Coragem e coerência.

Há muitos trabalhos lúcidos ainda hoje que dignificam os animais que nos servem. Muitos cozinheiros e produtores tem semeado discursos e regras muito generosas. No sul dos Estados Unidos, churrasqueiros tradicionais mantém uma tradição de criar animais livres, com dignidade, lhes oferecendo a melhor vida possível e respeitando todo seu ciclo, inclusive no momento do abate, onde a morte do animal é quase um ritual muito sério feito com muito respeito. Os churrasqueiros mantém uma relação de conexão íntima com o animal em todo processo. É comum ainda o hábito de ao colocar um porco inteiro para ser assado eles darem “uns tapinhas” na traseira do animal, em um momento solene de silêncio que simboliza gratidão por ele se tornar um alimento para os homens. Em muitos lugares do mundo, muitos cozinheiros tem falado da importância também do modo como o animal é preparado, da forma mais impecável possível para que a carne fique excepcional e honre a vida do animal. Seguindo essa filosofia, desperdiçar  ou errar um prato tem sido um crime em algumas cozinhas.

Eu consumo carne, não me vejo por hora em via de adotar um estilo de vida vegetariano ou vegano – apesar de estar comendo cada vez mais alimentos de origem vegetal. Mas há muitas formas de respeitar a natureza e o animal,  mesmo o consumindo. Isso depende das aspirações, estilo de vida, opinião pessoal e escolhas de cada um. O que sei é que é diferente comer um animal de vida triste e comer um de vida digna, que foi respeitado e teve a melhor vida que pode ter antes de ser abatido. E outra coisa: os excessos. Você não precisa comer carne todo dia, não mesmo. O excesso de consumo é um dos maiores produtores da crueldade. Se a demanda diminui, menos crueldade será necessária para produzir em abundância um elemento de origem animal. O excesso de consumo cria necessidades comerciais que quebram ciclos naturais, pois o tempo da natureza é lento para a velocidade do nosso desejo de consumo. Você pode comer muitas plantas (que uma natureza tão generosa também oferece) e não ter animais no seu prato todo dia. Criatividade, inovação e quebra de costumes, difícil, mas lindo e revolucionário. Acho que o equilíbrio é um grande segredo. Nossa escolha de alimento é o que gera a demanda de produção industrial –  começa na gente, nas escolhas do dia a dia na prateleira do supermercado.

Bom, meus caros, é dessa história toda (e mais algumas outras) que vem nossos ovos. Não falei aqui sobre os danos à nossa saúde que esse processo de criação industrial traz – acreditem, ainda tem isso. Mas é papo para outro momento. Sobre as galinhas, sinto uma vergonha em pensar que eu também sou parte dessa tortura para com elas. Talvez eu não queira mais ser, terei que ter um grande trabalho emocional, cultural e habitual. Mas vale a pena. Tem algo que pode ser feito – essa vergonha pode ser o inicio de um impulso a mudança. Eu posso começar, por exemplo, escolhendo ovos de galinhas de vida digna, indo atrás de outras possibilidades. É um começo. Outro dia um primo querido, muito lúcido e inspirador sobre esse tema, escreveu algo que me emocionou – ele usou um termo: célula revolucionária. Uma célula é algo pequeno diante de um organismo inteiro. Mas transformações importantes que dominam algo maior começam em células. Tentemos ser células revolucionárias, então.

Vivemos em um mundo incrível, generoso e que nos oferta muito. Mas ele está muito gasto, nós estamos, nossa relação com a natureza está completamente bizarra e gasta. Todo mundo sabe disso. Nem todo mundo. Talvez por isso valha a pena escrever o que estou escrevendo, se uma pessoa ler isso já terá valido a pena. Se uma pessoa pensar em escolher ovos de galinhas de vida digna já terá valido a pena. A consciência de algo é o primeiro passo da possibilidade de transformação desse algo. Esqueçam as fontes de proteínas, pensem nos bichos. Lembrem das galinhas ao escolher os ovos, lembrem das crianças escravizadas na África ao escolher os chocolates. Há uma sensação maravilhosa que nos invade quando temos um ato de harmonia e respeito com o mundo – porque nós também somos o mundo. Eu quero sentir isso muitas, muitas outras vezes. Por mais que haja ainda em mim tantos hábitos de consumo que venham de alguma escravidão e crueldade, eu quero começar por algum lugar. É assim que é possível, real. Tem um caminho, um sentido. Vivo falando do quanto encontramos coisas muito importantes no ato de cozinhar – a cozinha nos conecta à tanta história, emoção, ética, origem, cultura e relação, é uma excelente porta para começarmos a repensar algumas escolhas de consumo, algumas posturas éticas que temos deixado de lado há muito tempo. A consciência é o maior ato de liberdade. Saiba do que você faz parte, reescolha.

Referências bibliográficas: Felipe, T. Sônia – O sono das galinhas, publicado no site da Agência de Notícias de Direitos Animais, 2011.

Carosella, Paola. Todas as Sextas/ textos Paola Carosella; fotografias Jason Lowe – São Paulo: Editora Melhoramentos, 2016.

Cozinhando as 94 receitas do livro “Todas as sextas”,de Paola Carosella. A gratidão de “todas as sextas”. Tem um porque.

O dia que agradeci Paola, segurando a mão dela e sentindo que toda essa energia honesta, que vem quando a gente agradece, estava sendo de fato sendo enviada à ela.  Foi no lançamento do livro “Todas as sextas” em São Paulo. Uma das coisas mais lindas da vida é poder dizer à alguém o quanto somos gratos por algo. A vida é muito generosa quando nos da a chance de fazer isso. Essa foto representa muito pra mim.

Eu decidi cozinhar todas as 94 receitas do livro “Todas as sextas”, da cozinheira Paola Carosella. As 94 receitas em até 1 ano, uma a uma até ter feito todas. E tem um porque. Um porque que faz isso ter todo sentido, por isso eu preciso dizer, com alguns detalhes. Há 2 anos conheci o trabalho de Paola através do Masterchef. A principio ela era pra mim uma chef elegante, fina, engraçada, famosa e incrivelmente talentosa, e só. Até então eu não sabia muito sobre ela. Depois de alguns meses vendo o programa passei a sentir algum tipo de entusiasmo ao ver Paola falar de alimentos, de técnicas, de pratos e da natureza. Daí fiquei curioso em saber mais dela (e eu queria mais desse entusiasmo também), então pesquisei mais sobre o trabalho e vida de Paola. Não precisei mais do que uns 3 resultados do Google para entender de onde vinha o entusiasmo que o discurso dela criava em mim. Paola falava de muitas coisas quando falava de alimentação. Falava de respeito ao ingrediente, respeito a enorme generosidade da natureza que devíamos levar em conta e ser generosos em troca. Falava de relações genuínas através da cozinha, de terra, do crescimento emocional através do trabalho duro, dos duros imperativos sociais que seguimos e mantemos quando escolhemos o que comer e como questionar esses imperativos repensando nossas escolhas – como ela diz: “comer é um ato social, cozinhar é revolucionário”. O discurso de Paola fez um laço com tudo que me levou a criar o blog, com toda minha necessidade de falar de gastronomia com um olhar afetivo, psicológico, social e poético. Então eu fiquei muito feliz em acompanhar o trabalho dela mais de perto – nessa época a vida andava um pouco triste, faltavam cores. Então surgiu um entusiasmo crescente. Cozinhar e escrever foi uma saída muito importante para eu manter uma posição criativa diante da vida, das suas faltas e excessos.

Um dia descobri que Paola trabalhou com o Francis Malmann. Pra mim foi emocionante pensar no laço dessas duas histórias, porque recentemente eu tinha visto um documentário sobre a vida e obra de Francis e fiquei fascinado com a liberdade que ele inspirava. A proximidade do homem com a natureza que ele é parte, o retorno as nossas origens e histórias para poder fazer um trabalho autêntico na vida, que exale nossa alma – as ideias de Francis me inspiraram muito. Assim como Paola me inspirou. Eram muitas inspirações que me questionavam, me incomodavam e me colocavam em movimento. É bom quando somos instigados a nos movimentar, a pensar em abandonos e inaugurações, normalmente é o começo da nossa originalidade. O mais legal de admirar pessoas é em algum momento notar o que essas pessoas que admiramos podem nos revelar de nós a nós mesmos – se conduzirmos de uma forma boa, admirar alguém é algo que revela algo muito importante sobre nós,  algo que muitas vezes não reconhecemos como nosso, mas que é. O outro ajuda a gente a notar.

Um outro dia, aliás, há 9 dias, ganhei de presente o livro recém lançado da Paola. Eu li o capítulo da biografia dela em 3 horas em um domingo que foi há 5 dias. Eu me emocionei muito – Por muitas coisas que não consigo dizer bem. Coisas da minha história foram movimentadas com essa leitura. Às vezes passamos anos em terapia pensando em algumas coisas. Às vezes em 3 horas lendo um livro é como se pensássemos em tudo de uma vez, como uma explosão de sentido. Muita coisa da minha história começou a fazer algum sentido diferente depois que li os relatos autobiográficos de Paola, pensei muito, principalmente sobre minhas possibilidades ao longo da vida de conseguir notar valor em mim e de buscar um olhar de amor.

Quando as pessoas resolvem compartilhar com generosidade suas histórias e experiências, podemos aprender algumas coisas valiosas.  O livro “Todas as sextas” me ajudou a ver a fragilidade e humanidade de Paola, o que consequentemente me ajudou a ver o brilho dela de maneira mais intensa e real. O que é de verdade, o que tem defeitos, o que tem medo, o que tem fracasso e o que tem imperfeição é muito mais real. Quando temos ídolos quase que o separamos de aspectos humanos e frágeis, vemos aquele brilho lindo e nos atentamos a isso. Quando um ídolo conta sua história de verdade ele nos faz desconstruir uma idealização e nos da de presente o seu real. Isso é de alguma forma lindo porque nos convida a pensar no quanto às vezes nos achamos menos do que somos. Se vemos a fragilidade nas pessoas que admiramos perdoamos nossas próprias fragilidades e nos reconectamos com a condição mais humana de todas: A imperfeição. E isso é libertador. A verdade é que histórias lindas são construídas por pessoas reais, com vidas tão cheias de “rachaduras” (expressão que Paola usa no livro) como as nossas. Enxergar isso nos encoraja a chegar mais perto do nosso próprio brilho, um brilho real que existe no meio de toda imperfeição que somos. E além disso, nos faz admirar esse ídolo de uma forma nova e mais linda ainda, porque agora ele é mais real. O real é lindo. Quando Paola contou através do livro uma história humana e imperfeita ela me convidou a revisitar o conceito de sucesso, e do que esse conceito é feito quando é de verdade e não um slogan vazio e aniquilador.

E há 2 dias eu encontrei Paola pessoalmente, na noite de autógrafos de seu livro em São Paulo, abracei ela e toda essa história que contei acima. Podem imaginar como foi, então, né? Eu tremi porque era muito importante estar ali e agradecer, por tudo isso que a obra dela me ajudou a conectar, reconectar e significar. O mais incrível foi encontrar pessoalmente exatamente a Paola que li sobre – simples, divertida, elegante (no sentido mais legal da palavra) e generosa. Muito humana, nada de deusa da televisão intocável. Às vezes uma pessoa na mídia mostra uma imagem lustrada e muito irreal. Paola não, Paola era ela ali como me parecia ser em todo canto que vi ela, quem eu esperava abraçar eu abracei. Através do seu trabalho, manifestações públicas e redes sociais ela sempre mostrou seu real, de algum modo quando encontramos ela pessoalmente legitimamos isso. Paola foi generosa com as aproximadamente 400 pessoas que foram lá abraçá-la. Esteve de pé, recebendo todos com sorriso, abraço e alegria. Ela também parecia querer agradecer. Foi lindo sentir que ela prestava real atenção e conferia muito valor e respeito a tudo que ouvia – eu fiquei abestadamente emocionado quando vi que a dedicatória que ela fez ao autografar meu livro era em sintonia com o que eu tinha dito pra ela naqueles poucos minutos que tivemos juntos (eu falei de gratidão, eu só queria agradecer). Ela ouviu de verdade o que dissemos. Mesmo com tanta gente, com tanta coisa, com tanto encontro, ela deu o maior espaço possível para cada um que foi lá. Isso é muita generosidade. Era a Paola que eu li sobre, mesmo.

E foi por gratidão que eu fui vê-la. Era tão importante pra mim dizer obrigado. Eu não tinha como, não tinha tempo, de contar essa história toda pra ela, mas eu tinha tempo de dizer obrigado, e isso já era maravilhoso. Eu pude dizer o quanto sou grato a ela por tanta coisa que o trabalho e história dela despertou em mim. A vida é muito generosa quando nos permite agradecer. A gratidão é a melhor via para o amor fluir.

E agora, porque decidi cozinhar as 94 receitas do livro “Todas as sextas”? Principalmente por gratidão, que é o nome da história que contei agora. O livro é constituído a partir da história de uma das pessoas que mais me inspirou a olhar com vida e criatividade para minha história atualmente, então faz todo sentido que eu cozinhe o que ela ensina. Outro elemento é que eu preciso cozinhar mais, eu quero aprender mais e aprender essa gastronomia, sensível a natureza, ao mundo, aos afetos, aos laços sociais e ao amor – Paola ensina a culinária que ressoa em mim, a cheia de respeito, generosidade, humanidade e história, e é essa que eu quero aprender mais. Costuma ser muito bom aprender algo que é ensinado com autenticidade e generosidade. Farei as 94 receitas dentro do período de 1 ano, e toda sexta postarei a foto do resultado do que cozinhei na semana corrente. A receita não será compartilhada, claro, apenas a foto do resultado junto com minha experiência emocional ao fazer cada prato – o que será uma forma de ampliar a gratidão que sinto e também perceber os laços emocionais que cada preparo evocará em mim, as marcas que ficarão (notar as marcas que as coisas deixam é muito importante). Cada receita terá um sentido. Através da generosidade de Paola, que compartilhou tanto no livro, buscarei aprender, experimentar, para me conectar com os laços e discurso que ela lança, e ao mesmo tempo me conectar comigo mesmo, com meu discurso interno, movimentando a mim mesmo.

Existe sim uma semelhança nesse projeto com o que Julie Powell fez com o livro de receitas de Julia Child – Vemos essa história no livro e filme Julie & Julia, que conta como Julie decidiu cozinhar as 524 receitas do livro de Julia em 365 dias. Essa história também me inspira, porque assim como Julie eu também fui salvo de uma vida um pouco triste e sem cor quando decidi que precisava cozinhar e escrever (quando o blog nasceu, aliás). E Julia Child também me inspira muito, muito mesmo, assim como Paola, assim como Francis, assim como Raíza Costa. Mas no caso, Paola será minha Julia e “Todas as sextas” será meu “Mastering the Art of French Cooking”.

São esses todos os motivos que sei (devem ter outros que ainda não sei) do porque cozinharei as 94 receitas do livro “Todas as sextas”. São motivos muito importantes para mim. Sexta que vem, 18/11/2016, começa. Terá uma categoria exclusiva no blog chamada “Gratidão de todas as sextas” para essas postagens, e elas estarão também no meu Instagram e Facebook. Uma postagem toda sexta. A sexta-feira é meu dia preferido. Será agora um dia de gratidão.