Ovos de galinhas de vida digna. Qual impacto da sua escolha de ingredientes?

Galinhas de vida digna. Paola Carosella usa muito esse termo em seu livro “Todas as sextas”, nos convidando à refletir sobre a nossa escolha de ingredientes. Quanto mais penso sobre esse termo, mais o acho lindo, mais ele me emociona. Galinhas de vida digna são aquelas criadas soltas, em lugares bons, que tenham a chance de ter adequados ciclos de descanso,  de alimentação, que possam dormir no escuro e ter a melhor vida que puderem. Muito diferente da triste vida de galinhas comerciais, que vivem em gaiolas, sem paz, sem descanso adequado, que muitas vezes são torturadas, levando uma vida sem dignidade e respeito. Infelizmente, a maioria das galinhas do mundo tem uma vida muito triste, mesmo sendo um bicho tão generoso, que nos fornece tanto – já parou pra pensar o tanto de pratos e preparos que levam ovos? Estão na base de qualquer cultura gastronômica! Os ovos são tão importantes para gente, e nós, como agradecemos as galinhas? Enquanto elas nos dão tanto, lhes damos de volta abusos, desequilíbrios e vidas muito tristes.

Devemos muitas desculpas às galinhas, e às tantas outras espécies que escravizamos – que não são só galinhas. Por interesses gastronômicos e econômicos ainda escravizamos seres da nossa própria espécie – você já estudou de onde vem o cacau das marcas de chocolate que você consome? A história de muitas crianças escravizadas na África fazem parte dele, por exemplo. Comer é maravilhoso, o sabor do mundo é, mas infelizmente há muito sofrimento no meio desse prazer. Não precisava ser assim. A natureza é perfeita, brilhante e generosa, mas nós não somos nem um pouco isso em troca com ela. Recebemos tanto, mas estamos tão acostumados a extrair, abusar, desequilibrar. Por isso falo tanto de gratidão, por isso gratidão é tão importante, ela nos move a pensar sobre escolher melhor, respeitar,  ser generoso, mudar – o que é uma dura tarefa. Mas existe um caminho. Precisamos pensar, com lucidez e gratidão, sobre as galinhas, sobre nós, sobre de onde vem as coisas e quais histórias ajudamos a manter e construir.

Os ovos na prateleira dos mercados, as carnes, as plantas, os chocolates – tudo vem de um lugar e tem uma história para chegar até nós. Quantos animais vivem (e morrem) para que tenhamos todos esses alimentos? Não dá pra contar. Li recentemente um artigo sobre a vida de galinhas comerciais, li mais algumas coisas, assisti alguns documentários de pessoas sérias e preocupadas. Pensei na importância de termos consciência da origem dos ingredientes, para assim termos condições e elementos para refletir, nos emocionar e escolher melhor o que comemos. Que história ajudamos a manter com nossa escolha? Que história queremos “comer” e ser parte? Sônia T. Felipe, escreve um interessante artigo intitulado “O sono das galinhas”, nele ela se apega a esse aspecto de suas vidas para descrever a crueldade da criação comercial de galinhas. Segundo Sônia, as galinhas que podem viver livres e seguir seus ciclos naturais costumam passar 10 ou 12 horas por dia dormindo no escuro, no silêncio, descansando sua hipófise dos estímulos produzidos pelos raios solares e produzindo hormônios que descansem seu organismo. Já na cruel realidade do confinamento industrial, as galinhas são apenas máquinas de produção. A  luz desses ambientes é mantida acesa 22 horas por dia – o que promove uma sobrecarga de ovulação (para produzirem mais ovos) – o que também é estimulado com intensidade pelas rações alteradas, alimento bem diferente do que elas escolheriam se fossem livres. Comem e vivem como máquinas, abastecidas para ovular, e ponto. Vivem empilhadas, sem espaço, sem sono, sem escuro, sem alimentação natural, sem silêncio, respiram um ar alterado que promove uma série de desequilíbrios em sua saúde. Em um ambiente tão desesperador elas acabam atingindo um nível estressor tão grande que se tornam canibais – daí, para evitar perdas, eles cortam e queimam seus bicos, sem anestesia e de maneira precária, causando dores que podem se estender por muito tempo. Muitas dores juntas. Uma vida triste e cruel que dura cerca de 4 anos, quando estão “gastas”, é hora de serem degoladas.

Pense em como é ficar apenas uma noite sem um descanso adequado, um dia sem um momento de tranquilidade ou alimentação boa. Pense em uma vida inteira assim. Bom, não dá nem pra pensar, não é? O “sono das galinhas” – a inexistência do sono, um direito e necessidade natural – é apenas uma das dignidades vetada a essa espécie que escravizamos, pois há diversas outras torturas que elas são expostas para chegar de diversas formas e ofertas às prateleiras dos supermercados.

As galinhas e de onde vem os ovos são apenas um exemplo, porque se fossemos falar em detalhes de toda escravidão que nós humanos submetemos tantas espécies – inclusive a nossa – seriam muitas, muitas páginas. Tristes páginas. Por vida digna, entende-se animais que possam viver livres seus ciclos naturais, ter paz – mesmo sendo de alguma forma servidores de nossos prazeres. É muito mais digno e respeitoso consumir o ovo da galinha enquanto oferecemos à ela ao menos uma vida boa, a melhor que possa ter. Há uma maneira mais digna de consumir produtos de origem animal, uma maneira equilibrada que respeite o todo, uma maneira mais ética (temos uma luz crescente hoje que é a produção orgânica de alimentos). Comer um animal (ou um derivado dele) de vida digna é diferente de comer um animal de vida triste, que não teve o melhor possível enquanto vivo. Aliás, animais esses que temos chamado de “proteínas” – odeio esse termo que desnaturaliza uma vida – são bichos! Esse termo talvez sirva para alimentar aquela alienação confortável, que nos mantém longe da ideia de que a carne vem de uma morte, de um bicho vivo, muitas vezes de um bicho triste de um sistema cruel – gostamos de nos esconder da verdade inconveniente. Se é proteína, e não um bichinho morto, tudo bem ir pra minha panela. Quer comer, coma encarando o que é de verdade. Coragem e coerência.

Há muitos trabalhos lúcidos ainda hoje que dignificam os animais que nos servem. Muitos cozinheiros e produtores tem semeado discursos e regras muito generosas. No sul dos Estados Unidos, churrasqueiros tradicionais mantém uma tradição de criar animais livres, com dignidade, lhes oferecendo a melhor vida possível e respeitando todo seu ciclo, inclusive no momento do abate, onde a morte do animal é quase um ritual muito sério feito com muito respeito. Os churrasqueiros mantém uma relação de conexão íntima com o animal em todo processo. É comum ainda o hábito de ao colocar um porco inteiro para ser assado eles darem “uns tapinhas” na traseira do animal, em um momento solene de silêncio que simboliza gratidão por ele se tornar um alimento para os homens. Em muitos lugares do mundo, muitos cozinheiros tem falado da importância também do modo como o animal é preparado, da forma mais impecável possível para que a carne fique excepcional e honre a vida do animal. Seguindo essa filosofia, desperdiçar  ou errar um prato tem sido um crime em algumas cozinhas.

Eu consumo carne, não me vejo por hora em via de adotar um estilo de vida vegetariano ou vegano – apesar de estar comendo cada vez mais alimentos de origem vegetal. Mas há muitas formas de respeitar a natureza e o animal,  mesmo o consumindo. Isso depende das aspirações, estilo de vida, opinião pessoal e escolhas de cada um. O que sei é que é diferente comer um animal de vida triste e comer um de vida digna, que foi respeitado e teve a melhor vida que pode ter antes de ser abatido. E outra coisa: os excessos. Você não precisa comer carne todo dia, não mesmo. O excesso de consumo é um dos maiores produtores da crueldade. Se a demanda diminui, menos crueldade será necessária para produzir em abundância um elemento de origem animal. O excesso de consumo cria necessidades comerciais que quebram ciclos naturais, pois o tempo da natureza é lento para a velocidade do nosso desejo de consumo. Você pode comer muitas plantas (que uma natureza tão generosa também oferece) e não ter animais no seu prato todo dia. Criatividade, inovação e quebra de costumes, difícil, mas lindo e revolucionário. Acho que o equilíbrio é um grande segredo. Nossa escolha de alimento é o que gera a demanda de produção industrial –  começa na gente, nas escolhas do dia a dia na prateleira do supermercado.

Bom, meus caros, é dessa história toda (e mais algumas outras) que vem nossos ovos. Não falei aqui sobre os danos à nossa saúde que esse processo de criação industrial traz – acreditem, ainda tem isso. Mas é papo para outro momento. Sobre as galinhas, sinto uma vergonha em pensar que eu também sou parte dessa tortura para com elas. Talvez eu não queira mais ser, terei que ter um grande trabalho emocional, cultural e habitual. Mas vale a pena. Tem algo que pode ser feito – essa vergonha pode ser o inicio de um impulso a mudança. Eu posso começar, por exemplo, escolhendo ovos de galinhas de vida digna, indo atrás de outras possibilidades. É um começo. Outro dia um primo querido, muito lúcido e inspirador sobre esse tema, escreveu algo que me emocionou – ele usou um termo: célula revolucionária. Uma célula é algo pequeno diante de um organismo inteiro. Mas transformações importantes que dominam algo maior começam em células. Tentemos ser células revolucionárias, então.

Vivemos em um mundo incrível, generoso e que nos oferta muito. Mas ele está muito gasto, nós estamos, nossa relação com a natureza está completamente bizarra e gasta. Todo mundo sabe disso. Nem todo mundo. Talvez por isso valha a pena escrever o que estou escrevendo, se uma pessoa ler isso já terá valido a pena. Se uma pessoa pensar em escolher ovos de galinhas de vida digna já terá valido a pena. A consciência de algo é o primeiro passo da possibilidade de transformação desse algo. Esqueçam as fontes de proteínas, pensem nos bichos. Lembrem das galinhas ao escolher os ovos, lembrem das crianças escravizadas na África ao escolher os chocolates. Há uma sensação maravilhosa que nos invade quando temos um ato de harmonia e respeito com o mundo – porque nós também somos o mundo. Eu quero sentir isso muitas, muitas outras vezes. Por mais que haja ainda em mim tantos hábitos de consumo que venham de alguma escravidão e crueldade, eu quero começar por algum lugar. É assim que é possível, real. Tem um caminho, um sentido. Vivo falando do quanto encontramos coisas muito importantes no ato de cozinhar – a cozinha nos conecta à tanta história, emoção, ética, origem, cultura e relação, é uma excelente porta para começarmos a repensar algumas escolhas de consumo, algumas posturas éticas que temos deixado de lado há muito tempo. A consciência é o maior ato de liberdade. Saiba do que você faz parte, reescolha.

Referências bibliográficas: Felipe, T. Sônia – O sono das galinhas, publicado no site da Agência de Notícias de Direitos Animais, 2011.

Carosella, Paola. Todas as Sextas/ textos Paola Carosella; fotografias Jason Lowe – São Paulo: Editora Melhoramentos, 2016.

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